. gatos e coelhos .




Três coelhos começaram uma baderna dos infernos. Deve ter sido o bolo de cenoura. Eu queria muito comer sossegado e então soltei o cachorro da minha mulher. Era um poodle, ele saiu correndo dos coelhos e esses como que latindo atrás dele. O cachorro me pediu colo - ou ele também queria cenoura? - desesperado. Pensei em como é estranha a palavra "cenoura". Eu nunca tive dó de cachorro mesmo então deixei o poodle lá, pra alegria dos coelhos.

Minha mulher - dona do poodle, e que pensei que já tivesse saído – já veio me olhando torta pedindo pra ajudar o cão dela, afinal, aquele era um dia feliz. O bolo era em comemoração à seu terceiro catálogo premiado sobre texturas subliminares em brinquedos infantis. Ela era realmente muito boa em texturas. Entendia tudo só de colocar a mão. Nossos filhos nunca tiveram brinquedos, além daqueles que Deus deu à eles - ou dará, pois além deles não terem brinquedos, nós ainda nem temos eles - Tirei o poodle do chão mas não sabia mais o que fazer com ele em mãos, pois eu já tinha me preparado pra comer o bolo. Isso me fez lembrar de certas emoções enferrujadas.

- Tá vendo, meu bem? - eu disse, com o poodle no colo - Você sempre me criando problemas.

- Amor, não é melhor você calar a boca? Da última vez que trocamos uma idéia acabou ficando claro que você era um idiota.

- Hoje é diferente. A situação é que faz um argumento.

- E isso lá é argumento?

- Sim, naturalmente – não gosto quando ela começa perguntar – É um bastante legítimo.

- Se for, me mostra então a situação que faz esse argumento. Vai.

- Mas, meu bem, eu já te expliquei isso, tal situação é metalingüística! – eu tentava me conter sem paciência – Sendo assim, é algo impossível de se dizer.

- Pois então, cala a boca, tá vendo? Tu é otário.

Por essas e outras essa vadia me irritava. Ela estava de saída, logo logo os coelhos terão seu cachorro. Como disse, não tenho pena de cão. E pra começo de conversa, nem sei pra quê coelhos! Será que todas as mulheres são loucas que nem as minhas? Vou chamar os coelhos de “xis” a partir de agora.

- Meu bem, antes de você sair – eu disse com minha melhor voz - Pense bem, você gostaria que eu oferecesse xis ao cachorro?

- Depende, xis é “coelho”?

- Até parece! - eu disse, mas a vaca foi esperta - Dá onde você tirou isso? Nada a ver.

- Então é “gato” e nesse caso pode dar pro cachorro. O gato é filhote, ele é fofo e o cachorro também. Não vão brigar.

- Do que você tá falando? – eu já estava começando a ficar puto - Ficou loca?

- Ué, de animal, tirando o cachorro, só tem coelho ou gato aqui em casa, é fácil.

- E quem falou que xis é animal, porra?

- Porquê “ração” não é, pois você sabe que pode sim dar ração, então não teria me perguntado...

- Escuta aqui... – gaguejei, e como eu gostaria de ser mais homem pra enfiar-lhe um tapa, mas eu só disse, num lento ênfase: - que o seu próprio andar atraia a desgraça ao seu caminho, vaza daqui.

Ela sorriu, e jogou sujo como sempre. Talvez pior, pois, dessa vez, foi andando pro meio da sala e abriu a minha gaveta secreta na cômoda que eu nem sabia que ela sabia! Arrancou uma camisinha do meu pacotinho e fechou camuflando de um jeito que eu achava que só eu fazia! Saiu me olhando e se sorrindo toda, trancou a porta devagar. Que vaca, meu Deus, que vaca. E ainda tinha algo a mais que queria me vir à mente mas não me vinha. Eu acabara de ficar embebido num ânimo de merda.

Porém, num pesado apesar, e que me critiquem os mais espertos, mas em vista de não causar outros problemas, e que eu seja um frouxa pois acho que sou, mas eu acabei por fim fazendo o que ela me pediu – por essas e outras é que a humanidade ainda existe, filosofei um pouco - e mais, não só protegi o cachorro dos xis como também dei banho e tosa. Até limpei o mijo dos fundos - mas deixei a merda pra ela limpar, fiz que não vi - Tudo estava enfim correto, agora eu podia, finalmente, voltar a me preocupar em comer o bolo de cenoura despreocupadamente, já estava quase esquecendo de como eu queria comer isso mas, estranhamente, não vi mais onde estava o bolo. No entanto, seria impossível vê-lo, pois não havia mais bolo; algo o comera. Só farelos e moscas. E eu com muita vontade de um pedaço. Fiquei pensando em quem pôr a culpa e logo o telefone tocou. Aí quando é assim, você atende. Era um velho conhecido, eu não queria papo, mas ele me soltou uma bomba.

- Velhinho, lembra do processo que a gente moveu? Fudeu e os cara tão no contra-ataque pesado. Todo mundo.

Faltou mencionar que esse conhecido era adevogado. Mas eu não lembrava de nada. Então eu disse:

- Eu não lembro de nada.

- Não brinca comigo! Uns três anos atrás, a gente fez até denúncia em jornal, como você não lembra? Parou de usar droga? Velho, a gente apelou. Descemos o cacete no Procon. Quer dizer, eu que dei as entradas mas os pedidos eram nossos... - nesse instante, o gato filhote começou a querer subir minhas pernas - ...a gente achou que eles não queriam ajudar mas era a gente que tava viajando, meu. A Jontèx provou que não erra a quantidade de camisinha nos pacotinhos. Juntou eles e o Procon. Vão descer porrada.

- Caralho! - o passado que se explica lentamente é como um zumbi gosmento saindo aos poucos da escuridão – Então era isso! Minha mulher me rouba e é uma puta faz tempo! - eu falei alto sem querer, e também pensei “deve ser por isso que eu sempre senti um gosto estranho na boca dela” - Ave...

- Co.. como assim – disse o adevogado - você não sabia?

- Não sabia o quê? - perguntei grilado - Que porra é essa?

- Cara, por nada não, sua mulher faz o ponto três vezes na semana, lá do lado do bar, ela sempre diz que você não liga.

- Como assim 'sempre'?

- Velho, foi mal mas esquece essa merda, te aconselho a se preocupar mais com o Procon e a Jontèx pois os cara tão querendo até...

Desliguei o telefone, óbvio. A essa altura o gato já tava me enchendo querendo bicuda decerto. Miava e me olhava como que dizendo "meu, essa porra tá ficando uma merda". O dia parecia ter parado na linha ajustada da desgraça. Tenho que esquecer disso tudo... e como eu queria o bolo! Bolo de cenoura. Cenoura! Embora a Jontèx seja especialista em foder os outros, meu estado mental se preocupava mais em onde minha mulher guardou a receita do bolo, nunca fiz um que... mas, de repente, no meio dessa confusão escura, ajuntando peças dos quintos dos infernos, tudo ficou claro como o fogo de um isqueiro: minha mulher saca de textura porque pratica a pegação. Bati a mão na testa e me senti um Niels Bohr deixando escapar um ou outro Nobel em Física: "Mas que coisa óbvia! Como pude ser tão idiota? Isso é maravilhoso!"

Mas no meu caso isso não era maravilhoso - e no caso de Niels Bohr, também não foi para Hiroshima - Minha vida anterior já parecia não ter mais volta, ou valer a pena. Processado, corno de puta e até no quimba de jeba. Alguma mudança se auto-proclamava, algo deveria ser feito: esqueci que tinha começado a chamá-los de xis e escolhi uma coelhinha entre os três coelhos, resolvi que essa coitada seria um mártir da minha desgraça, junto com o poodle, naturalmente. Isso também não iria resolver meus problemas, mas toda e qualquer convivência saudável depende de doses homeopáticas de catarse e, como diz Platão: “se não tem internet, vai com a mente”.

O que bolei da mente foi o seguinte: derreti ao banho-maria até borbulhar algumas deliciosas barras de chocolate Nestlè - que eu jamais processaria! - e pressionei firme o poodle enquanto derramava o chocolate sobre ele. Ele gritou mas foi só no início. Não demorou muito e também não mais se mexeu. Tentei moldá-lo em forma de ovo e, confesso, ficou melhor depois de seco. E ficou até bonito, esse ovo. Então escrevi um bilhete explicando que eu só iria aceitar daqui pra frente gatos e coelhos em casa, não mais cachorros – aproveitei e já desejei uma feliz páscoa, para que não me encha o saco depois se eu esquecer –

Abri a barriga da coelhinha com uma faca - porém fui piedoso e não a matei antes pois eu queria lhe dar a oportunidade de se sentir grávida antes de morrer, mas só depois vi que era um macho... - Enfim, de qualquer forma, coloquei o ovo lá dentro de um jeito que ficasse bem natural. Deixei na geladeira, pra quando ela voltar, por que sei que gosta gelado.

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