. sob o fardo de guerras que ninguém viu .

Haviam quatro militares olhando para o céu há bastante tempo. Três deles não sabiam direito o que olhavam, e um não sabia nem que olhava, estava sonâmbulo. A guerra já se prolongava por longos vinte e um minutos depois do previsto, mas eles de nada sabiam. Era noite de um dos piores dias durante a guerra, mas eles também nada sabiam. Há uma semana foram massacrados, estavam num grupo de ação altamente sigilosa composta por quase cem mas sobrou só quatro. A missão era tão sigilosa que coisas como o objetivo final da ação ou sua localização eram segredos até aos próprios soldados. Sob a confusão do dito massacre, os quatro se camuflaram perfeitamente mais por medo que por estratégia. Só agora resolveram sair, alguns nunca tinham se visto. A alimentação já era uma preocupação pois foi preciso alguns dias sem ouvir tropas até criarem coragem pra andar e conversar. Agora, pelos trejeitos nas cabeças e nos braços, procuravam constelações num céu bem propício a isso, um que dá pra ver.

- Mas que coisa! Eu já falei, não estou vendo centauro nenhum!

- Você tem que usar a imaginação, a pata está levantada.

- Pata? Soldado, se você citar uma poesia agora eu juro...

- Sargento, eu no fundo também não vejo, mas dizem que está aí, e logo do lado parece que fica o Cruzeiro, depois é só olhar na ponta tangente inferior pra saber melhor onde estamos.

- Não brinca comigo, soldado. O Cruzeiro só existe na porcaria do hemisfério Sul. Aprendeu astronomia onde? Em caixa de sucrilhos? O senhor sabe onde estamos?

- Não, sargento, por isso precisamos...

- Então como o senhor me faz ficar olhando pra merda do céu há mais de meia hora procurando fada decerto? E se a gente estiver no Norte? Porra?

- Sargento, eu...

- Falou até que tinha visto já o minotauro com pata e tudo apontando no meio...

- Centauro.

- ...como é que é?

- Não é minotauro, sargento, é centauro. Deve ser por isso que...

- Você tá querendo me dar um beijo, né? Só pode.

- Senhores, me desculpe intrometer... – o terceiro soldado se intromete, talvez prevendo uma briga (o quarto soldado permanecia sonâmbulo) – Sei que sou de outra divisão mas acredito que, realmente, não dá pra ver o Cruzeiro daqui.

- Então o quê, estamos no Norte?

- Não, não é isso. Eu disse que não dá pra ver porque eu não vi e não porque ele não está aí pra ver.

- E vocês dois estão achando que agora é festa, né? Achando que pode falar merda?

- Não, não, não é isso! Eu só quero ajudar, só estou dizendo que talvez é melhor subir um pouco a montanha pra ver melhor.

- É verdade, sargento, nisso ele está certo. Peço permissão pra...

- “Permissão”? Pra quê, soldado? Quer casar e tá se achando minha filha? Só pode.

- Não, sargento, é que... digo, então o senhor ficará de olho no Radar?

- Radar?! Você tá ficando louco? Os caras destruíram tudo e você sabe disso!

- Não, sargento, "Radar" é o apelido que demos pro sonâmbulo ali, porque ele fica zanzando, se esqueceu?

- É "Sonar", sua anta, de "sonâmbulo". Puta que pariu, te recrutaram na Apai?

- Não, desculpa... sargento... estou só te lembrando de cuidar dele.

- Soldado, não é possível, hoje é sua folga e não me avisaram. Tá me achando com cara de babá? Com cara de príncipe pra bela adormecida? Você tem cara de veado, e príncipe é tudo veado.

- Sim, sargento, mas... o que isso quer dizer?

- Que o senhor poeta vai ficar de soldado-babá contando poesia e eu vou subir a porcaria da montanha com a merda do soldado da porra da outra divisão. É difícil deduzir?

- Não, senhor.

- Compreendido então, soldado?

- Sim, senhor.

- "sim senhor"...

Desse modo, depois dessa semi-gritaria (ainda não se atreviam a tanto) o Sargento e o outro soldado se prepararam e partiram. Apesar da noite os presentear com brisas suaves num clima bastante ameno e agradável – e, pelo fim da guerra (só atrasou vinte e um minutos mesmo), há muito a floresta não era tão silenciosa – a escalada de meia hora foi um pouco difícil. O disciplinado aprendizado militar fizera ambos escalarem em total silêncio e se ajudando mutuamente. Na medida que subiam, o céu noturno se revelava sobre um imenso e impressionante vale parcialmente iluminado pela lua minguante. De longe se escutavam chacais, ou elefantes. Chegaram lá em cima cansados e suados. Apesar disso, assim que chegou, o soldado imediatamente se preparou para verificar as estrelas, isto é, olhou pra cima.

- Opa, aí está ele, um lindo Cruzeiro! Bem, sargento, se me permite também lhe chamar assim, estamos no hemisfério Sul!

- Você deve me chamar de sargento, seu idiota. Quê mais você viu?

- Como assim?

- Onde no hemisfério Sul, criatura?

- Mas isso eu não sei olhar.

- Então que merda você veio fazer aqui em cima, soldado?

- Desculpe, sargento, é que vi você e o outro discutindo sobre o Cruzeiro, eu só quis ajudar.

- Entendi... – o Sargento disse isso desamarrando um grande facão preso na cintura – ...então não é o outro soldado, é você que quer me beijar, não é? Vai, pode falar. Vê se eu sou macio.

O soldado tentou se defender ou qualquer outra coisa mas o que quer que tenha sido terminara num completamente inútil e apavorante grito de dor e desespero reverberando tão alto pela floresta à noite que até acordou o sonâmbulo, lá embaixo, que por sua vez de repente pôs a mão no ombro do soldado-babá perguntando aflito "onde estou?" assustando-o de tal maneira que o poeta instantaneamente morreu.

Em questão de segundos então, restaram vivos apenas o Sargento lá em cima – com mais um crime pelas costas – e o Sonar lá embaixo, agora desperto, assustado pela morte súbita do companheiro e realmente começando a sondar o perigo de estar sozinho à noite numa floresta desconhecida. Lá em cima, o Sargento olhava fixadamente pro céu tentando decorar a posição exata do que pensava ser o Cruzeiro pra perguntar como deduzir a coordenada depois que descer mas de repente arregalou os olhos.

- Que caralho! - ponderou ele quando se lembrou que eram necessário no mínimo duas pessoas para a escalada de volta.

No entanto, antes de se desesperar, o Sargento teve uma pequena sombra de esperança ao lembrar dos outros soldados lá embaixo. Talvez escutariam se ele gritasse pedindo ajuda. Então tentou se lembrar do nome do soldado-babá para ordená-lo a subir e como lembrou que na verdade nunca soube qual era, desistiu disso. Respirou fundo e gritou:

- Poeta! Poeta! Larga de abusar do Sonar e venha aqui me ajudar! Isso é uma ordem! Poeta!

Como veremos, esse breve bom humor do Sargento vindo da esperança, acabaria logo. Obviamente, o poeta já estava morto, mas o Sargento de nada sabia. No entanto, lá embaixo, Sonar escutou claramente o grito de socorro do Sargento mas como não estava ciente de que seu apelido era “Sonar” não entendeu nada e nada respondeu. Essa falta de resposta foi suficiente pra eliminar o bom humor do Sargento: o abatimento o abateu. Por sua vez, Sonar também não estava mais calmo, pensava em inimigo. Pensou que o que tinha escutado era código que ele não conhecia, que era um observador dando coordenada. Abaixou a cabeça, fechou os olhos e questionou sinceramente a si mesmo, “fudeu, né?”.

- Poeta! Poeta! Porra! Poeta! – os gritos recomeçaram e agora pareciam mais frenéticos – Poeta! Ah!

Se o Sargento estava entrando em pânico por não ter como descer, Sonar também estava, mas era por um medo intenso que começava a invadi-lo, não raciocinava direito, mas conseguiu ao menos respirar fundo e se preparar para um ataque defensivo, armou o rifle. Avançou um pouco na intenção de escutar de onde vinham os gritos. Mas os gritos se calaram completamente – na verdade, o Sargento começou a chorar baixinho, mas não tinha como o Sonar saber – Sonar então tentou atrair atenção de quem estava gritando. Lembrou que os gritos mencionara “poeta”. Deveria ele tentar uma poesia?

- Escute! O céu... – disse Sonar num só grito, e concluiu – ...bonito!

Pelo menos ao escutar isso o Sargento parou de chorar. Passou o braço sobre o nariz, limpando, respirou fundo e apontou a cabeça lá pra baixo gritando de volta.

- Que merda é essa, soldado? Isso é uma ordem, porra!

Nisso, Sonar conseguiu ver bem de longe na escuridão a posição do Sargento, mas como não o conhecia e por isso não o reconheceu, mirou e explodiu sua cabeça num headshot tão belo que poderia ser propaganda de video-game, pensou.

Daí Sonar continuou pensando em outras coisas e como numa revelação iluminada viu que, devido a sua situação, se quisesse sair vivo desse isolamento noturno numa floresta sitiada, precisaria aceitar triunfantemente essa provação em sua vida e resolveu então escolher um rumo qualquer e torar reto. Era perigoso. Deveria haver ainda muitos inimigos e, se brincar, já estavam descendo. Até escutava vozes, “parece belga”, pensou. Respirou fundo e ...foi. Era claramente uma audaciosa e perigosa aventura que o esperava mas nenhum peso faz pressão quando o próprio caminho te convida a aceitar e você tem que aceitar e quer aceitar e aceita a sua tarefa. Embora alguns leitores não gostem de histórias com ensinamentos ou moral, nosso herói aqui já morre de saída, abortando sua história num traiçoeiro precipício, concluindo enquanto caía que a vida, assim como tudo aquilo que vale a pena, não precisa de continuação.

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2 comentários:

fochesatto disse...

que anedota chocante.

nhanhá disse...

sonhei que eu estava na bélgica fazendo sopa láctea com o cruzeiro. parecia bolacha mabel com leite e nescau: "sopa de bolacha!" dizia vovó.