.crime bizarro.




Houve um momento em que a suposição estava dividida entre Susaninha Finca Poste e seu macaco cozinheiro adestrado, chamado Darwin. A cena era intensa, e tudo dependia não só da opinião mas também da memória de uma criança, sua filha, que, embora não diagnosticada oficialmente, emitia claros sintomas de retardo. Mas era esperta, a seu modo: pelo menos mais do que o macaco. Além de Susaninha, Darwin e a infeliz criança, estavam presentes o padre Gorth (missionário da Suíça ou Armênia), o xerife coronel e técnico em informática 'Rxbnsmo' (que exigia que se dirigissem a ele por seu nick pró-hacker) junto com duas soldadas bem jovens, mais a legista Margareti (especialista em autópsia em negros), além do pai da retardada, Zé Parede, um porteiro pobre, filho de milionária, mas com muito orgulho da profissão. Ou ex-filho, pois bem no meio daquela suntuosa e bela sala de estar o corpo de sua recentemente falecida mãe chocava a todos, sem roupas, amarrado numa posição selvagem, cinco camisinhas sujas de sangue e um cabo de vassoura, ao lado, também sujo de sangue, até a metade. Duas gosmentas poças de sangue deixavam tudo ainda mais... uma perto da boca, outra perto da bunda.

Dona Cecília Robusta morrera assim há mais ou menos duas horas ou três dias, segundo margem de erro. De qualquer forma, a criança teria presenciado, mas talvez era especial demais para ser útil de alguma forma - por obediência à cartilha o xerife 'Rxbnsmo' até chegou a cogitá-la como suspeita de matar a avó milionária, mas simplesmente olhar para aquela garota lhe causava tanto estica-boca que ele preferiu nem investigá-la (inclusive sentiu uma ponta de felicidade por ser assim tão rebelde em respeito às normas) -

Todos ali estavam pressionados e abalados por aquela situação tensa, uns tentando encontrar algo, outros talvez tentando esconder. O xerife se lembrou de ascender um cachimbo e ficou bastante desapontado por não ter pensado nisso antes, havia mais de meia hora que estavam ali e analisar em silêncio uma bizarra cena de crime é algo tão raro que merece sempre ser feito com um cachimbo aceso - "de que valem as situações raras da vida se não podemos aproveitá-las ao máximo?" o xerife ficou bem feliz por ter pensado tal frase bonita e se remoeu muito por não poder postá-la imediatamente em seu twitter; não resistiu e olhou pros lados procurando ao menos um laptop -

Mas encontrou apenas os cândidos porém analíticos olhos de Zé Parede.

- Não vai investigar, xerife?

- Qual a sua profissão, seu Zé?

- Somos responsáveis por abrir suas portas, selecionar suas visitas, suas cartas e coisas deixadas aleatoriamente na portaria.

- Diga-me, então, o senhor vê aqui algo que possa ser classificado 'dentro' e outro algo que possa ser classificado 'fora'?

- Eu filtro pessoas e objetos, não perguntas. Mas me parece que nada aqui, além das obvias porções escancaradas de mamãe, nada aqui se presta a tais classificações. Por que essa pergunta, tenente?

- Xerife.

- Como?

- Xerife!

- O senhor é o próprio xerife, por quê está chamando ele?

- ...

- Essa piadinha infame foi para lhe mostrar que eu sei de seu segredo... se o senhor fosse mesmo o xerife teria ascendido o charuto quando entrou, não é? Não é? Uh? Não é? Diga, tenente, onde está o xerife? Mamãe parece que está morta, mas o mundo não irá parar por causa disso, as pessoas continuam se acumulando lá na portaria. Preciso voltar. Se o trabalho não dignifica o homem, pelo menos estabelece horários. Uma vez, fui no banheiro na hora errada e quando retornei a confusão era tamanha que os moradores preferiram demolir o prédio. Na ocasião, eu fui inclusive nomeado Papa por não ter tomado partido. Tré Cool e Ana Maria Braga me indicaram ao prêmio Nobel da paz. Novamente não pude, eu estava selecionando pessoas. Mas ontem, por exemplo, Chico Xavier se psicografou em minha xícara de chá e me disse que eu era a reencarnação do Internet Explorer. Sou tão bom em selecionar as coisas que quando a Mãe Natureza for despedida, Deus já me garantiu o emprego de Seleção Natural.

- Bem, e isso me leva de volta ao meu primeiro suspeito, o macaco.

- Evolua o argumento, xerife.

- Sua mulher, então.

Susaninha Finca Poste ficou puta. Naturalmente. Como ousara? Havia sim ´etros de distância entre sua ingrata profissão de bedel de circunferência de poste e os adendos de um xerife. Mas ela não era assassina - nunca jurou o amor, por exemplo - e embora sua filha fosse retardada, não gostava de ser assim caluniada na frente da coitadinha.

- Esperem um pouco! Acho que eu posso falar alguma coisa... - amenizou a médica legista, já na autopsia - Se a vítima fosse preta, eu teria algo para ajudar aqui, pois o corpo deles por dentro também é diferente. No lugar do coração, por exemplo, os negros possuem uma cachoeira...

Com um único tiro, Zé Parede também matou a legista.

- Odeio poetas.

Logo em seguida, apontou a arma para o xerife, que ainda pensava em cachoeiras.

- Sinhô doutor oficial 'Rxbnsmo' de merda, vamos, trabalhe. Investigue, quem você acha que matou mamãe? Cuidado pra não responder errado.

Todos ali na sala, inclusive a retardada (mas por outros motivos), não sabiam o que fazer.

- Xerifêzinho, escuta. - continuou Zé Parede - Ascende logo a merda do charuto que eu não converso com policial veado.

O xerife pegou tremendo o cachimbo e tentou ascender. Um estrondoso e violento tapa em sua cara jogou o cachimbo pra longe. Zé Parede ameaçava enfiar-lhe ainda outro.

- Cachimbo?! Tá se achando o Beethoven? Porra. Sabe por que ele ficou surdo? Sabe? Sabe? Sabe? Responde, caralho!- e então enfiou-lhe outro tapa -

Só não continuou por que, nesse instante, algo inusitado aconteceu. A retardada se aproximou de sua avó morta. Parecia convicta de alguma coisa. Colocou lentamente as mãos sobre sua cabeça ensangüentada e ficou ali parada. Depois, deu uma profunda fechada nos olhos e abaixou a cabeça. Mas foi só isso. Nada aconteceu.

- Tá olhando o quê, xerife? - disse Zé Parede - Tá esperando milagre, porra? - e novamente lhe enviou outro tapa -

No entanto, um brilho intenso começou a irradiar do meio da sala. Dois pares brancos de asas emplumadas saíram das costas da retarda que começou a levitar. O vento aumentara e soava como um coral gregoriano. A avó levantou viva, sem entender nada. Três dos Teletubbies apareceram rastejando pela janela, oferecendo bolo de morango, suco de groselha e panfletos com o link. Dizem que até a Xuxa, hoje velha, apareceu por lá.


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