. sob o fardo de guerras que ninguém viu .

Haviam quatro militares olhando para o céu há bastante tempo. Três deles não sabiam direito o que olhavam, e um não sabia nem que olhava, estava sonâmbulo. A guerra já se prolongava por longos vinte e um minutos depois do previsto, mas eles de nada sabiam. Era noite de um dos piores dias durante a guerra, mas eles também nada sabiam. Há uma semana foram massacrados, estavam num grupo de ação altamente sigilosa composta por quase cem mas sobrou só quatro. A missão era tão sigilosa que coisas como o objetivo final da ação ou sua localização eram segredos até aos próprios soldados. Sob a confusão do dito massacre, os quatro se camuflaram perfeitamente mais por medo que por estratégia. Só agora resolveram sair, alguns nunca tinham se visto. A alimentação já era uma preocupação pois foi preciso alguns dias sem ouvir tropas até criarem coragem pra andar e conversar. Agora, pelos trejeitos nas cabeças e nos braços, procuravam constelações num céu bem propício a isso, um que dá pra ver.

- Mas que coisa! Eu já falei, não estou vendo centauro nenhum!

- Você tem que usar a imaginação, a pata está levantada.

- Pata? Soldado, se você citar uma poesia agora eu juro...

- Sargento, eu no fundo também não vejo, mas dizem que está aí, e logo do lado parece que fica o Cruzeiro, depois é só olhar na ponta tangente inferior pra saber melhor onde estamos.

- Não brinca comigo, soldado. O Cruzeiro só existe na porcaria do hemisfério Sul. Aprendeu astronomia onde? Em caixa de sucrilhos? O senhor sabe onde estamos?

- Não, sargento, por isso precisamos...

- Então como o senhor me faz ficar olhando pra merda do céu há mais de meia hora procurando fada decerto? E se a gente estiver no Norte? Porra?

- Sargento, eu...

- Falou até que tinha visto já o minotauro com pata e tudo apontando no meio...

- Centauro.

- ...como é que é?

- Não é minotauro, sargento, é centauro. Deve ser por isso que...

- Você tá querendo me dar um beijo, né? Só pode.

- Senhores, me desculpe intrometer... – o terceiro soldado se intromete, talvez prevendo uma briga (o quarto soldado permanecia sonâmbulo) – Sei que sou de outra divisão mas acredito que, realmente, não dá pra ver o Cruzeiro daqui.

- Então o quê, estamos no Norte?

- Não, não é isso. Eu disse que não dá pra ver porque eu não vi e não porque ele não está aí pra ver.

- E vocês dois estão achando que agora é festa, né? Achando que pode falar merda?

- Não, não, não é isso! Eu só quero ajudar, só estou dizendo que talvez é melhor subir um pouco a montanha pra ver melhor.

- É verdade, sargento, nisso ele está certo. Peço permissão pra...

- “Permissão”? Pra quê, soldado? Quer casar e tá se achando minha filha? Só pode.

- Não, sargento, é que... digo, então o senhor ficará de olho no Radar?

- Radar?! Você tá ficando louco? Os caras destruíram tudo e você sabe disso!

- Não, sargento, "Radar" é o apelido que demos pro sonâmbulo ali, porque ele fica zanzando, se esqueceu?

- É "Sonar", sua anta, de "sonâmbulo". Puta que pariu, te recrutaram na Apai?

- Não, desculpa... sargento... estou só te lembrando de cuidar dele.

- Soldado, não é possível, hoje é sua folga e não me avisaram. Tá me achando com cara de babá? Com cara de príncipe pra bela adormecida? Você tem cara de veado, e príncipe é tudo veado.

- Sim, sargento, mas... o que isso quer dizer?

- Que o senhor poeta vai ficar de soldado-babá contando poesia e eu vou subir a porcaria da montanha com a merda do soldado da porra da outra divisão. É difícil deduzir?

- Não, senhor.

- Compreendido então, soldado?

- Sim, senhor.

- "sim senhor"...

Desse modo, depois dessa semi-gritaria (ainda não se atreviam a tanto) o Sargento e o outro soldado se prepararam e partiram. Apesar da noite os presentear com brisas suaves num clima bastante ameno e agradável – e, pelo fim da guerra (só atrasou vinte e um minutos mesmo), há muito a floresta não era tão silenciosa – a escalada de meia hora foi um pouco difícil. O disciplinado aprendizado militar fizera ambos escalarem em total silêncio e se ajudando mutuamente. Na medida que subiam, o céu noturno se revelava sobre um imenso e impressionante vale parcialmente iluminado pela lua minguante. De longe se escutavam chacais, ou elefantes. Chegaram lá em cima cansados e suados. Apesar disso, assim que chegou, o soldado imediatamente se preparou para verificar as estrelas, isto é, olhou pra cima.

- Opa, aí está ele, um lindo Cruzeiro! Bem, sargento, se me permite também lhe chamar assim, estamos no hemisfério Sul!

- Você deve me chamar de sargento, seu idiota. Quê mais você viu?

- Como assim?

- Onde no hemisfério Sul, criatura?

- Mas isso eu não sei olhar.

- Então que merda você veio fazer aqui em cima, soldado?

- Desculpe, sargento, é que vi você e o outro discutindo sobre o Cruzeiro, eu só quis ajudar.

- Entendi... – o Sargento disse isso desamarrando um grande facão preso na cintura – ...então não é o outro soldado, é você que quer me beijar, não é? Vai, pode falar. Vê se eu sou macio.

O soldado tentou se defender ou qualquer outra coisa mas o que quer que tenha sido terminara num completamente inútil e apavorante grito de dor e desespero reverberando tão alto pela floresta à noite que até acordou o sonâmbulo, lá embaixo, que por sua vez de repente pôs a mão no ombro do soldado-babá perguntando aflito "onde estou?" assustando-o de tal maneira que o poeta instantaneamente morreu.

Em questão de segundos então, restaram vivos apenas o Sargento lá em cima – com mais um crime pelas costas – e o Sonar lá embaixo, agora desperto, assustado pela morte súbita do companheiro e realmente começando a sondar o perigo de estar sozinho à noite numa floresta desconhecida. Lá em cima, o Sargento olhava fixadamente pro céu tentando decorar a posição exata do que pensava ser o Cruzeiro pra perguntar como deduzir a coordenada depois que descer mas de repente arregalou os olhos.

- Que caralho! - ponderou ele quando se lembrou que eram necessário no mínimo duas pessoas para a escalada de volta.

No entanto, antes de se desesperar, o Sargento teve uma pequena sombra de esperança ao lembrar dos outros soldados lá embaixo. Talvez escutariam se ele gritasse pedindo ajuda. Então tentou se lembrar do nome do soldado-babá para ordená-lo a subir e como lembrou que na verdade nunca soube qual era, desistiu disso. Respirou fundo e gritou:

- Poeta! Poeta! Larga de abusar do Sonar e venha aqui me ajudar! Isso é uma ordem! Poeta!

Como veremos, esse breve bom humor do Sargento vindo da esperança, acabaria logo. Obviamente, o poeta já estava morto, mas o Sargento de nada sabia. No entanto, lá embaixo, Sonar escutou claramente o grito de socorro do Sargento mas como não estava ciente de que seu apelido era “Sonar” não entendeu nada e nada respondeu. Essa falta de resposta foi suficiente pra eliminar o bom humor do Sargento: o abatimento o abateu. Por sua vez, Sonar também não estava mais calmo, pensava em inimigo. Pensou que o que tinha escutado era código que ele não conhecia, que era um observador dando coordenada. Abaixou a cabeça, fechou os olhos e questionou sinceramente a si mesmo, “fudeu, né?”.

- Poeta! Poeta! Porra! Poeta! – os gritos recomeçaram e agora pareciam mais frenéticos – Poeta! Ah!

Se o Sargento estava entrando em pânico por não ter como descer, Sonar também estava, mas era por um medo intenso que começava a invadi-lo, não raciocinava direito, mas conseguiu ao menos respirar fundo e se preparar para um ataque defensivo, armou o rifle. Avançou um pouco na intenção de escutar de onde vinham os gritos. Mas os gritos se calaram completamente – na verdade, o Sargento começou a chorar baixinho, mas não tinha como o Sonar saber – Sonar então tentou atrair atenção de quem estava gritando. Lembrou que os gritos mencionara “poeta”. Deveria ele tentar uma poesia?

- Escute! O céu... – disse Sonar num só grito, e concluiu – ...bonito!

Pelo menos ao escutar isso o Sargento parou de chorar. Passou o braço sobre o nariz, limpando, respirou fundo e apontou a cabeça lá pra baixo gritando de volta.

- Que merda é essa, soldado? Isso é uma ordem, porra!

Nisso, Sonar conseguiu ver bem de longe na escuridão a posição do Sargento, mas como não o conhecia e por isso não o reconheceu, mirou e explodiu sua cabeça num headshot tão belo que poderia ser propaganda de video-game, pensou.

Daí Sonar continuou pensando em outras coisas e como numa revelação iluminada viu que, devido a sua situação, se quisesse sair vivo desse isolamento noturno numa floresta sitiada, precisaria aceitar triunfantemente essa provação em sua vida e resolveu então escolher um rumo qualquer e torar reto. Era perigoso. Deveria haver ainda muitos inimigos e, se brincar, já estavam descendo. Até escutava vozes, “parece belga”, pensou. Respirou fundo e ...foi. Era claramente uma audaciosa e perigosa aventura que o esperava mas nenhum peso faz pressão quando o próprio caminho te convida a aceitar e você tem que aceitar e quer aceitar e aceita a sua tarefa. Embora alguns leitores não gostem de histórias com ensinamentos ou moral, nosso herói aqui já morre de saída, abortando sua história num traiçoeiro precipício, concluindo enquanto caía que a vida, assim como tudo aquilo que vale a pena, não precisa de continuação.

.

. gatos e coelhos .




Três coelhos começaram uma baderna dos infernos. Deve ter sido o bolo de cenoura. Eu queria muito comer sossegado e então soltei o cachorro da minha mulher. Era um poodle, ele saiu correndo dos coelhos e esses como que latindo atrás dele. O cachorro me pediu colo - ou ele também queria cenoura? - desesperado. Pensei em como é estranha a palavra "cenoura". Eu nunca tive dó de cachorro mesmo então deixei o poodle lá, pra alegria dos coelhos.

Minha mulher - dona do poodle, e que pensei que já tivesse saído – já veio me olhando torta pedindo pra ajudar o cão dela, afinal, aquele era um dia feliz. O bolo era em comemoração à seu terceiro catálogo premiado sobre texturas subliminares em brinquedos infantis. Ela era realmente muito boa em texturas. Entendia tudo só de colocar a mão. Nossos filhos nunca tiveram brinquedos, além daqueles que Deus deu à eles - ou dará, pois além deles não terem brinquedos, nós ainda nem temos eles - Tirei o poodle do chão mas não sabia mais o que fazer com ele em mãos, pois eu já tinha me preparado pra comer o bolo. Isso me fez lembrar de certas emoções enferrujadas.

- Tá vendo, meu bem? - eu disse, com o poodle no colo - Você sempre me criando problemas.

- Amor, não é melhor você calar a boca? Da última vez que trocamos uma idéia acabou ficando claro que você era um idiota.

- Hoje é diferente. A situação é que faz um argumento.

- E isso lá é argumento?

- Sim, naturalmente – não gosto quando ela começa perguntar – É um bastante legítimo.

- Se for, me mostra então a situação que faz esse argumento. Vai.

- Mas, meu bem, eu já te expliquei isso, tal situação é metalingüística! – eu tentava me conter sem paciência – Sendo assim, é algo impossível de se dizer.

- Pois então, cala a boca, tá vendo? Tu é otário.

Por essas e outras essa vadia me irritava. Ela estava de saída, logo logo os coelhos terão seu cachorro. Como disse, não tenho pena de cão. E pra começo de conversa, nem sei pra quê coelhos! Será que todas as mulheres são loucas que nem as minhas? Vou chamar os coelhos de “xis” a partir de agora.

- Meu bem, antes de você sair – eu disse com minha melhor voz - Pense bem, você gostaria que eu oferecesse xis ao cachorro?

- Depende, xis é “coelho”?

- Até parece! - eu disse, mas a vaca foi esperta - Dá onde você tirou isso? Nada a ver.

- Então é “gato” e nesse caso pode dar pro cachorro. O gato é filhote, ele é fofo e o cachorro também. Não vão brigar.

- Do que você tá falando? – eu já estava começando a ficar puto - Ficou loca?

- Ué, de animal, tirando o cachorro, só tem coelho ou gato aqui em casa, é fácil.

- E quem falou que xis é animal, porra?

- Porquê “ração” não é, pois você sabe que pode sim dar ração, então não teria me perguntado...

- Escuta aqui... – gaguejei, e como eu gostaria de ser mais homem pra enfiar-lhe um tapa, mas eu só disse, num lento ênfase: - que o seu próprio andar atraia a desgraça ao seu caminho, vaza daqui.

Ela sorriu, e jogou sujo como sempre. Talvez pior, pois, dessa vez, foi andando pro meio da sala e abriu a minha gaveta secreta na cômoda que eu nem sabia que ela sabia! Arrancou uma camisinha do meu pacotinho e fechou camuflando de um jeito que eu achava que só eu fazia! Saiu me olhando e se sorrindo toda, trancou a porta devagar. Que vaca, meu Deus, que vaca. E ainda tinha algo a mais que queria me vir à mente mas não me vinha. Eu acabara de ficar embebido num ânimo de merda.

Porém, num pesado apesar, e que me critiquem os mais espertos, mas em vista de não causar outros problemas, e que eu seja um frouxa pois acho que sou, mas eu acabei por fim fazendo o que ela me pediu – por essas e outras é que a humanidade ainda existe, filosofei um pouco - e mais, não só protegi o cachorro dos xis como também dei banho e tosa. Até limpei o mijo dos fundos - mas deixei a merda pra ela limpar, fiz que não vi - Tudo estava enfim correto, agora eu podia, finalmente, voltar a me preocupar em comer o bolo de cenoura despreocupadamente, já estava quase esquecendo de como eu queria comer isso mas, estranhamente, não vi mais onde estava o bolo. No entanto, seria impossível vê-lo, pois não havia mais bolo; algo o comera. Só farelos e moscas. E eu com muita vontade de um pedaço. Fiquei pensando em quem pôr a culpa e logo o telefone tocou. Aí quando é assim, você atende. Era um velho conhecido, eu não queria papo, mas ele me soltou uma bomba.

- Velhinho, lembra do processo que a gente moveu? Fudeu e os cara tão no contra-ataque pesado. Todo mundo.

Faltou mencionar que esse conhecido era adevogado. Mas eu não lembrava de nada. Então eu disse:

- Eu não lembro de nada.

- Não brinca comigo! Uns três anos atrás, a gente fez até denúncia em jornal, como você não lembra? Parou de usar droga? Velho, a gente apelou. Descemos o cacete no Procon. Quer dizer, eu que dei as entradas mas os pedidos eram nossos... - nesse instante, o gato filhote começou a querer subir minhas pernas - ...a gente achou que eles não queriam ajudar mas era a gente que tava viajando, meu. A Jontèx provou que não erra a quantidade de camisinha nos pacotinhos. Juntou eles e o Procon. Vão descer porrada.

- Caralho! - o passado que se explica lentamente é como um zumbi gosmento saindo aos poucos da escuridão – Então era isso! Minha mulher me rouba e é uma puta faz tempo! - eu falei alto sem querer, e também pensei “deve ser por isso que eu sempre senti um gosto estranho na boca dela” - Ave...

- Co.. como assim – disse o adevogado - você não sabia?

- Não sabia o quê? - perguntei grilado - Que porra é essa?

- Cara, por nada não, sua mulher faz o ponto três vezes na semana, lá do lado do bar, ela sempre diz que você não liga.

- Como assim 'sempre'?

- Velho, foi mal mas esquece essa merda, te aconselho a se preocupar mais com o Procon e a Jontèx pois os cara tão querendo até...

Desliguei o telefone, óbvio. A essa altura o gato já tava me enchendo querendo bicuda decerto. Miava e me olhava como que dizendo "meu, essa porra tá ficando uma merda". O dia parecia ter parado na linha ajustada da desgraça. Tenho que esquecer disso tudo... e como eu queria o bolo! Bolo de cenoura. Cenoura! Embora a Jontèx seja especialista em foder os outros, meu estado mental se preocupava mais em onde minha mulher guardou a receita do bolo, nunca fiz um que... mas, de repente, no meio dessa confusão escura, ajuntando peças dos quintos dos infernos, tudo ficou claro como o fogo de um isqueiro: minha mulher saca de textura porque pratica a pegação. Bati a mão na testa e me senti um Niels Bohr deixando escapar um ou outro Nobel em Física: "Mas que coisa óbvia! Como pude ser tão idiota? Isso é maravilhoso!"

Mas no meu caso isso não era maravilhoso - e no caso de Niels Bohr, também não foi para Hiroshima - Minha vida anterior já parecia não ter mais volta, ou valer a pena. Processado, corno de puta e até no quimba de jeba. Alguma mudança se auto-proclamava, algo deveria ser feito: esqueci que tinha começado a chamá-los de xis e escolhi uma coelhinha entre os três coelhos, resolvi que essa coitada seria um mártir da minha desgraça, junto com o poodle, naturalmente. Isso também não iria resolver meus problemas, mas toda e qualquer convivência saudável depende de doses homeopáticas de catarse e, como diz Platão: “se não tem internet, vai com a mente”.

O que bolei da mente foi o seguinte: derreti ao banho-maria até borbulhar algumas deliciosas barras de chocolate Nestlè - que eu jamais processaria! - e pressionei firme o poodle enquanto derramava o chocolate sobre ele. Ele gritou mas foi só no início. Não demorou muito e também não mais se mexeu. Tentei moldá-lo em forma de ovo e, confesso, ficou melhor depois de seco. E ficou até bonito, esse ovo. Então escrevi um bilhete explicando que eu só iria aceitar daqui pra frente gatos e coelhos em casa, não mais cachorros – aproveitei e já desejei uma feliz páscoa, para que não me encha o saco depois se eu esquecer –

Abri a barriga da coelhinha com uma faca - porém fui piedoso e não a matei antes pois eu queria lhe dar a oportunidade de se sentir grávida antes de morrer, mas só depois vi que era um macho... - Enfim, de qualquer forma, coloquei o ovo lá dentro de um jeito que ficasse bem natural. Deixei na geladeira, pra quando ela voltar, por que sei que gosta gelado.

.

.crime bizarro.




Houve um momento em que a suposição estava dividida entre Susaninha Finca Poste e seu macaco cozinheiro adestrado, chamado Darwin. A cena era intensa, e tudo dependia não só da opinião mas também da memória de uma criança, sua filha, que, embora não diagnosticada oficialmente, emitia claros sintomas de retardo. Mas era esperta, a seu modo: pelo menos mais do que o macaco. Além de Susaninha, Darwin e a infeliz criança, estavam presentes o padre Gorth (missionário da Suíça ou Armênia), o xerife coronel e técnico em informática 'Rxbnsmo' (que exigia que se dirigissem a ele por seu nick pró-hacker) junto com duas soldadas bem jovens, mais a legista Margareti (especialista em autópsia em negros), além do pai da retardada, Zé Parede, um porteiro pobre, filho de milionária, mas com muito orgulho da profissão. Ou ex-filho, pois bem no meio daquela suntuosa e bela sala de estar o corpo de sua recentemente falecida mãe chocava a todos, sem roupas, amarrado numa posição selvagem, cinco camisinhas sujas de sangue e um cabo de vassoura, ao lado, também sujo de sangue, até a metade. Duas gosmentas poças de sangue deixavam tudo ainda mais... uma perto da boca, outra perto da bunda.

Dona Cecília Robusta morrera assim há mais ou menos duas horas ou três dias, segundo margem de erro. De qualquer forma, a criança teria presenciado, mas talvez era especial demais para ser útil de alguma forma - por obediência à cartilha o xerife 'Rxbnsmo' até chegou a cogitá-la como suspeita de matar a avó milionária, mas simplesmente olhar para aquela garota lhe causava tanto estica-boca que ele preferiu nem investigá-la (inclusive sentiu uma ponta de felicidade por ser assim tão rebelde em respeito às normas) -

Todos ali estavam pressionados e abalados por aquela situação tensa, uns tentando encontrar algo, outros talvez tentando esconder. O xerife se lembrou de ascender um cachimbo e ficou bastante desapontado por não ter pensado nisso antes, havia mais de meia hora que estavam ali e analisar em silêncio uma bizarra cena de crime é algo tão raro que merece sempre ser feito com um cachimbo aceso - "de que valem as situações raras da vida se não podemos aproveitá-las ao máximo?" o xerife ficou bem feliz por ter pensado tal frase bonita e se remoeu muito por não poder postá-la imediatamente em seu twitter; não resistiu e olhou pros lados procurando ao menos um laptop -

Mas encontrou apenas os cândidos porém analíticos olhos de Zé Parede.

- Não vai investigar, xerife?

- Qual a sua profissão, seu Zé?

- Somos responsáveis por abrir suas portas, selecionar suas visitas, suas cartas e coisas deixadas aleatoriamente na portaria.

- Diga-me, então, o senhor vê aqui algo que possa ser classificado 'dentro' e outro algo que possa ser classificado 'fora'?

- Eu filtro pessoas e objetos, não perguntas. Mas me parece que nada aqui, além das obvias porções escancaradas de mamãe, nada aqui se presta a tais classificações. Por que essa pergunta, tenente?

- Xerife.

- Como?

- Xerife!

- O senhor é o próprio xerife, por quê está chamando ele?

- ...

- Essa piadinha infame foi para lhe mostrar que eu sei de seu segredo... se o senhor fosse mesmo o xerife teria ascendido o charuto quando entrou, não é? Não é? Uh? Não é? Diga, tenente, onde está o xerife? Mamãe parece que está morta, mas o mundo não irá parar por causa disso, as pessoas continuam se acumulando lá na portaria. Preciso voltar. Se o trabalho não dignifica o homem, pelo menos estabelece horários. Uma vez, fui no banheiro na hora errada e quando retornei a confusão era tamanha que os moradores preferiram demolir o prédio. Na ocasião, eu fui inclusive nomeado Papa por não ter tomado partido. Tré Cool e Ana Maria Braga me indicaram ao prêmio Nobel da paz. Novamente não pude, eu estava selecionando pessoas. Mas ontem, por exemplo, Chico Xavier se psicografou em minha xícara de chá e me disse que eu era a reencarnação do Internet Explorer. Sou tão bom em selecionar as coisas que quando a Mãe Natureza for despedida, Deus já me garantiu o emprego de Seleção Natural.

- Bem, e isso me leva de volta ao meu primeiro suspeito, o macaco.

- Evolua o argumento, xerife.

- Sua mulher, então.

Susaninha Finca Poste ficou puta. Naturalmente. Como ousara? Havia sim ´etros de distância entre sua ingrata profissão de bedel de circunferência de poste e os adendos de um xerife. Mas ela não era assassina - nunca jurou o amor, por exemplo - e embora sua filha fosse retardada, não gostava de ser assim caluniada na frente da coitadinha.

- Esperem um pouco! Acho que eu posso falar alguma coisa... - amenizou a médica legista, já na autopsia - Se a vítima fosse preta, eu teria algo para ajudar aqui, pois o corpo deles por dentro também é diferente. No lugar do coração, por exemplo, os negros possuem uma cachoeira...

Com um único tiro, Zé Parede também matou a legista.

- Odeio poetas.

Logo em seguida, apontou a arma para o xerife, que ainda pensava em cachoeiras.

- Sinhô doutor oficial 'Rxbnsmo' de merda, vamos, trabalhe. Investigue, quem você acha que matou mamãe? Cuidado pra não responder errado.

Todos ali na sala, inclusive a retardada (mas por outros motivos), não sabiam o que fazer.

- Xerifêzinho, escuta. - continuou Zé Parede - Ascende logo a merda do charuto que eu não converso com policial veado.

O xerife pegou tremendo o cachimbo e tentou ascender. Um estrondoso e violento tapa em sua cara jogou o cachimbo pra longe. Zé Parede ameaçava enfiar-lhe ainda outro.

- Cachimbo?! Tá se achando o Beethoven? Porra. Sabe por que ele ficou surdo? Sabe? Sabe? Sabe? Responde, caralho!- e então enfiou-lhe outro tapa -

Só não continuou por que, nesse instante, algo inusitado aconteceu. A retardada se aproximou de sua avó morta. Parecia convicta de alguma coisa. Colocou lentamente as mãos sobre sua cabeça ensangüentada e ficou ali parada. Depois, deu uma profunda fechada nos olhos e abaixou a cabeça. Mas foi só isso. Nada aconteceu.

- Tá olhando o quê, xerife? - disse Zé Parede - Tá esperando milagre, porra? - e novamente lhe enviou outro tapa -

No entanto, um brilho intenso começou a irradiar do meio da sala. Dois pares brancos de asas emplumadas saíram das costas da retarda que começou a levitar. O vento aumentara e soava como um coral gregoriano. A avó levantou viva, sem entender nada. Três dos Teletubbies apareceram rastejando pela janela, oferecendo bolo de morango, suco de groselha e panfletos com o link. Dizem que até a Xuxa, hoje velha, apareceu por lá.


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