.dos detalhes do apocalipse - primeira trilogia.




1.1 - O Quarteto do Adeus


- Era impressionante. Era de tempo verbal, não de tempo de época. Tipo, foi impressionante sacou? Eu lembro quando Deus botou a mão no meu bolso e deixou lá.

Esse era o Crunei. Seu nome era Jorge, mas aí botaram o Crunei de sacanagem. Ele tocava seringa no grupo. O nome deles era obviamente Quarteto do Adeus e ao menos um pouco de sua história merece ser mencionada. Antes, consistiam em um baixão de orquestra, um outro menor e dois violinu. Mas aí aproveitaram o sugestivo e forte nome do quarteto – além da notável inclinação dos músicos – e resolveram encarar o mundo de maneira profundamente sincera. Trocaram os instrumentos por apetrechos de drogas e fizeram arte com aquilo. Uma boa idéiazinha e um mínimo suficiente de talento e ousadia botaram o quarteto como farol de movimentos marginais. Uns furinhos na seringa e ela virou flauta. Rasgar e amassar sedas virou percursão. Fungação também é percursão. Também os isqueiros e as colheres e as eternamente sonoras streichholzschachtel! Grandes sacolas de parangas viraram facilmente bongôs. Garragas e mais garrafas de tudo quanto é coisa ilícita se transformaram em um enorme contraditório de possibilidades sonoras. A arte pode ser uma droga mesmo para os mais fortes de espírito mas a droga sempre é arte até para o mais fraco dos homens. Alastrou feito uma doença.

- Crunei, você já percebeu que absinto dá os sustenidos mais destemido que uma cerveja comum?

- Não.

- Outra coisa. Uísque barato tem um som mais doce-franquejado. Dependendo da música dá.

- Meu... foda-se.

A mídia e os outros tipos de artistas tentaram primeiramente difamar tal projeto lembrando de múmias morais como “sociedade” e “prudência”. Nada impediu. Aproveito para observar que embora os doutotres gritando unissonamente sobre como vivemos a grande época da informação e como a mídia tem um grande controle de quase tudo, isso é naturalmente uma mentira. Os publicitários conseguiram tanto que hoje em dia nem as crianças crêem mais em nada. O mundo sempre adorou drogas e artes, juntas ou separadas. A mídia é hoje como sempre impotente para mudar algo. O Quarteto do Adeus foi aleatoriamente sincero e o reconhecimento é sempre a melhor propaganda. A massa populacional é burra mas grande parte curte uma droguinha. Dados sociológicos provaram certa vez que se você conhece no mínimo três maconheiros você está indiretamente ligado a todas as pessoas no mundo. Isso é suficiente como justificativa de como um grupo socialmente cancerígeno como o Quarteto do Adeus cresceu rápido no coração das gentes.



1.2 – “O Adeus do Quarteto” ou “Do Nascimento do Golpe”


Não só a justiça é feita de dissoluções mas assim como todas as dissoluções ambas são internamente feitas de tal forma que ao se compilarem alguém sempre toma mais pois como dizem todos os xamãs, o poder é um eterno inimigo natural! Assim sendo como que programado, o grupo se desfez. Se desfez rapidamente pela inimizade crescente de dois importantes membros, Crunei, já apresentado, e Maria Conrado, seu pai e, na verdade, grande mentor da idéia.

Seu Maria Conrado era um dançarino aposentado que nesses tempos se dedicava aos estudos; queria morrer senão bacharel, ao menos licenciado. Metera-se em química - reconhecemos que foi uma decisão suspeita – e se esforçara tanto que começou a ter idéias. Misturando perfume, glitter e uns padrões de ferro ele acreditou piamente ter descoberto um novo aço biodegradável. Vendeu quase tudo o que tinha e investiu na descoberta. Chamou seu filho e uns amigos com quem faziam um som e pediu certa ajuda no projeto. Não afirmaremos nada sobre a qualidade do resultado mas é fato que ele conseguiu sim produzir alguma coisa. Maria queira radicalizar ainda mais. Apetrechos de drogas estava algo já muito aceito e digerido pelo público. O Quarteto do Adeus deveria apavorar. Maria queria que o grupo trocasse os apetrechos de drogas por armas assustadoramente mortais que ele mesmo produziria com sua descoberta. Assim, tão avançado em cultura e indústria, ele estaria na vanguarda incondicional do mundo! O Quarteto seria novamente uma novidade absoluta e a sua descoberta iria na rabeira da propaganda. “El golpe perfectum”, pensava ele em latim enquanto dormia.



1.3 – Jorge e os pecados da infância

Crunei não gostou. Argumentou que queria mesmo era investigar – foram essas as palavras – investigar as profundezas puras e mesquinhas da arte e que estava assim irremediavelmente descontente com o rumo do Quarteto. A realidade, porém, provavelmente era seu desgosto vindo de alguma desconexão tão não resolvida que, ao anoitecer, ele chorou descontroladamente durante longos minutos. No meio disso se lembrou de um dia tão ímpar na sua infância que por motivos óbvios tinha antes esquecido. Nem sempre é sutil o caminho da auto-sabotagem.

Nesse longínquo e comic dia da infância brincava ele nos balanços de um pequeno mirante. Ao seguir um suposto aleatório caminho de sua bola ele se distraiu e quando percebeu estava já dentro de uma casa ali na frente. Logo quando entrou se arrepiou. Um vulto passou aos fundos da sala. Foi muito rápido, mas não era preciso mais. Ele tinha certeza do que viu: era o super-homem que entrou voando pela janela e se trocou mais rápido que uma piscada, pendurou o famoso uniforme num esconderijo e, com a mão na barriga, entrou no banheiro. Crunei não lembra como saiu dali e então acreditou ter saído tão depressa da casa que nem percebeu pois logo depois já se viu de volta no mirante com a bola na sua frente, tipo teletransporte. Provavelmente ele estava só tendo sua primeira alucinação mas no entanto ele prometeu a si mesmo esquecer essa idiotice então dá na mesma. De fato, foi preciso uma profunda depressão e longos choros para que ele se lembrasse dessa visão. Como que num acerto divino, de repente, tudo se encaixou.

Jorge Crunei se alegrou. Ao menos um pouco. A roda viva é justa pois necessariamente não conhece nada sobre justiça. A felicidade é a unica coisa confiável nesse mundo pois ela é sempre de quem merece. O giro da Terra definitivamente não é uma prova de que o Sol brilha para todos, pensou ele - desperdiçando filosofia - pois nesse giro o Sol vai escolhendo precisamente a quem iluminar.


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