.o grande salão de poker - quando a loucura é bem paga.

segunda parte



Respirei fundo. Precisava resolver a japonesa rápido para poder ir calmamente terminar o dia numa sessão lucrativa adequada. Como disse, a surpresa é consistentemente constante quando se trata de Sebastiana. Com ela, o de repente virá. Mulheres assim são raras. Não importa como ou quanto você se prepara, ela sempre te pega por uma via não protegida, uma opção não analisada. Encontro após encontro. Noite após noite. Anos a fio. No entanto, se eu fosse realmente sincero com minha intuição, havia algo de exageradamente pesado no ar. Sem querer – nem de longe! – soar místico, a energia da Sebastiana era densa, mas não pesada. O clima ali estava pesado. Não acredito que a simples idéia dela me faça isso. Ouso pensar que é algo maior. Decido mesmo assim ou por isso mesmo ir correndo para o quarto dela. Se tem algo realmente acontecendo eu espero estar numa posição vantajosa quando e se merdas rolarem. Estar com Sebastiana é vantajoso, pois tenho sagrado comigo que lá no mais profundo fundo ontológico de todas as coisas há sempre uma dose construída de loucura que decide superfluamente as certezas universais e nos indica um caminho melhor de forma precisa e irredutivelmente individual – mesmo que esteja tudo errado –... eu estava já alcançando a escada quando discretamente porém, um garçom veio falar comigo. Eu realmente não queria falar com empregados.

Sua cara era vagamente familiar, não lembro o nome desse. Ele estava tão tenso com algo que provavelmente me fez confundir seu semblante.

- Senhor, vamos lá pra cima.

- Como?

- Vamos, senhor. Urgente. É que sujou.

- Como?

- Vamos indo. Explico no caminho.

- Amigo, não sei nem quem é...

- Senhor, sério. Não há tempo. Sou da segurança do cassino. Trabalho há mais de um ano pro senhor. Vamos comigo. Explico no caminho.

- Fala já, então.

- Primeiro que a Clarice loira fodia um cara da alta e ele viu o pé dela...

- E daí? O veado nunca pegou pereba?

- Não sei. O fato é que ...

De repente, o garçom fez que ia me salvar de algo e segurou alguém assim que apareceu na minha frente. Ele foi rápido e imobilizou quem quer que fosse. Eu vi em seus braços um par de olhos nervosos me procurando. Isso foi muito estranho, mas era um rosto feminino e até que demais de familiar.

- Mãe?!

- Filho! Eu preciso...

- Mãe, eu não entendo. Porra, mãe, foi a senhora reclamando do pé da Sabrina?

- ...filho?

- Não tem vergonha, mãe? Pagando puta? Olha sua idade!

- Senhor, por favor, acalme-se! - interveio o garçom segurando meu braço e já se desculpando com minha mãe - O rapaz suspeito ao qual eu me referia antes obviamente não era a sua mãe, pelo amor de Deus. O senhor pode estar correndo perigo. Vamos.

- Escute ele, filho, está perigoso, vamos!

- Vamos, senhor. – reinsistiu o garçom.

- Já entendi, caralho.

Entramos os três no elevador e minha mãe começou a falar desesperada.

- Filho, tem gente morta lá fora. A coisa preta, filho. A fita se soltou então algo grande vai acontecer aqui. É melhor chamargh...

O garçom tinha uma arma e matou minha mãe com um tiro direto na testa. Havia silencioso mas o som que mamãe fez morrendo vai me deixar com ânsia de vômito o resto da vida. O sangue se espalhou por todo o elevador. Quando fui ver, o cara estava com a arma apontada pra mim.

- Fica quieto e cala a boca. – me disse.

Ele apertou uns botões e com isso parou o elevador. O cara era bom. Depois pegou o celular.

- Pai, matei a vadia. Sim. Sim. Como? Refém? Eu pensei que... sim... desculpa...

Desligou e ficou com a arma apontada pra mim e me olhando preocupado.

- Cara... - eu disse pra ele sem realmente entender nada do que acontecia – ...sem raiva nenhuma mas podia saber por que mataram minha mãe ou...

Meti um murro na cara dele de repente. O cara caiu e ficou lá. Dei um chute no pescoço pra garantir. Infelizmente, o único lugar seguro em que eu podia pensar era no quarto da Sebastiana. Resolvi pegar a arma do infeliz antes de sair. Um assalto e Sebastiana, que dia. Sebastiana não é só um ganha-pão de psicólogo, nela a zica é genuína mas no fundo ela sabe que se não fosse por mim estaria fodida num hospício estatal qualquer e que, dependendo do que for, é muito fácil voltar pra lá. Ela sabe ao menos o quanto a desgraça é profunda e como eu sou um mero grude nesse imenso lamaçal.

Estou querendo evitar pensar no principal, mas enfim, alguma merda grande! Manuela falava a verdade então. O cassino está sendo fodido. Mamãe disse antes de morrer que a fita preta se soltou. Espero que os deuses da Bahia estejam dormindo. Ela conhecia bem a treta toda e não usaria essas palavras se não quisesse dar a elas significados precisos. Pois bem, quem diria? Acima de tudo, isso vai dar merda. É necessário muita disposição pra permanecer na luta ao roubar assim.

Cheguei no quarto da Sebastiana. Me preocupou muito o fato de que a porta estava aberta, encostada. Respirei fundo. Rezo sinceramente para que ela não tenha fugido na confusão. Abri de mansinho.

- Sebastiana... – chamei.

Não parecia haver ninguém lá. Só não sei pra onde ela iria. Procurei nos cantos da sala parcamente mobiliada. Nada. Resolvi procurar no banheiro mas também nada. Ninguém. É quase impossível se esconder aqui dentro, os móveis e a decoração se resumem em alguns tapetes estranhos e pequenos bibelôs orientais. Voltei pra sala e nada mesmo. Ela fugiu. Foda-se. O melhor é sair desse lugar o mais rápido possível. Espero que ela fique bem. Já estou me arriscando demais pois se me pegarem vão me reconhecer de novo e aí sim eu terei problemas. Vou pelos fundos do cassino. Se acaso lá também estiver cercado temo que será necessário algum improviso impressionante da minha parte. Eu pensava nisso quando tive dificuldades para abrir a porta do quarto até perceber que, na verdade, alguém tinha me trancado ali dentro.

- Sebastiana, não faz isso... - olhei para os lados em vã esperança - ...agora não, abre essa porra.

Obviamente, nenhum barulho. Não sei se isso é também culpa dela mas o fato é que logo depois as luzes foram cortadas. Breu total. Ela poderia muito bem fazer algo assim, já fez pior. O que me deixa em dúvida é que pelos barulhos dos vizinhos nas paredes o cassino inteiro parece estar sem luz. Junta-se a isso essa minha ridícula intuição e acredito que, infelizmente, dessa vez a coisa pode ser bem maior que a mera birra de uma guria, embora louca de verdade. Os gritos e barulhos no cassino começaram a aumentar. O hotel inteiro parecia estar em pânico crescente. Eu precisava pensar em algo urgente.

Há dois tipos de inimigos que atacariam abertamente um grande e evidente monstro, isto é, um grande idiota ou outro grande monstro. Conhecendo a situação como conheço, um grande idiota não teria sobrevivido até esse ponto. O que fecha o leque para uma gama pequena e assustadora de suspeitos. Poderia repetir isso setenta mil vezes invertido até, mas eu realmente espero que os deuses da Bahia estejam dormindo. Infelizmente, escuto o som da porta se destrancando. Minhas orelhas se encolhem involuntariamente e meus rins estalam uma nota tão aguda de chata que não sei por que achei que era fá sustenido. Minhas pernas precisam da parede. Estava com tanto medo que o silêncio me escorraçava numa polifonia pontuda de coceiras nas partes mais cômicas da minha espinha. Eu me contorcia.

Quando resolvo me controlar e prestar atenção em volta, de alguma forma, sinto algo estranho no pescoço e no equilíbrio. Pareço rodar de forma inusitada e cair no chão. Tento me levantar e a consciência vai sumindo. Nos últimos segundos concluo que, de alguma forma, arrancaram minha cabeça.