.dos detalhes do apocalipse - última trilogia.



3.1 – Contribuições para a história do Corpo

Merda ou não, aconteceu. Sabe-se lá de onde veio mas Maria Conrado, talvez por ser agora padre em missão, cumprira com sua palavra. Em menos de uma semana o elemento-dificílimo estava lá. Bola-Nada mal conseguia conter o estremecimento. O dinheiro – que, lembramos aqui, foi a causa de toda ruína do já saudoso Jorge Crunei – nem sequer arranhava a cartilagem preocupativa da nova dupla. Se Bola-Nada estava feliz, não sei dizer o que Maria Conrado sentia. Nunca os religiosos ou os apaixonados ou os nóias sentiram sequer algo parecido (mulheres, deuses e drogas geralmente dão o mesmo efeito). A pedido de Bola-Nada, Maria não mencionou se foi mesmo do cabelo do super-homem que conseguira tal elemento mas mencionou apenas que houveram contribuições místicas e, depois de um gaguejo, inferiu: milagre! O grande Deus olhava diretamente para os dois. Eram eles a base da nova falação divina. Um simples olhar pela história humana de repente se revelou como um longo plano celestial – de Cristo à Crunei – a sociedade é só uma tediosa e irônica indústria para transformar seres-humanos senão em ferro ao menos em plástico; no meio do projeto, Bola-Nada e Maria Conrado se sentiram inspirados pelo Espírito (o que quer que seja isso) e perceberam um novo milagre da biotecnologia: o aço-em-plástico que produziram com o elemento-dificílimo fundia-se na matéria orgânica mammal em perfeita e nunca nem catalogada sincronia.

- Nassa! Vai ver dá até pra ressuscitar o Crunei com isso. Porra, com ressuscitação, aí sim vai ser sagrado!

- Esquece isso, Maria, olha pra mim.

Bola-Nada então, tal qual um exterminador, mostrou-lhe sua nova mão: um absurdo. Parecia tudo normal. Exceto que o branco-azul meio reflexivo na superfície não era luva senão a própria pele de Bola-Nada. Antes ainda de qualquer reação mais intensa de Maria em relação a isso, Bola-Nada abriu o roupão e mostrou-lhe as pernas também trocadas. Foi Maria agora quem sentiu o estremecimento. Apesar do corpo de Bola-Nada transformado boa parte em plástico, Maria, embebido de sua fé, pôde sentir sem dúvida alguma a sagrada ironia de Deus massageando-lhe o coração de carne. “Augúrio altíssimum”, veio-lhe a certeza em latim. Com tal espírito da coisa, Maria Conrado, de lágrimas nos olhos, abraçou o amigo e jurou para todo o sempre lhe chamar somente pela sincera alcunha de ‘anjo’, sem aspas.

- ...pois não importa o que fazemos em vida, alguns estão condenados ao céu. Que seja feita vossa montagem.

Dessa forma, Maria se posicionou na cadeira enquanto o Anjo separava-lhe os remédios e, agora sim, a loucura começou.


3.2 – As raízes da ira divina

Depois da completa transubstanciação de ambos, outra idéia milagrosamente surgiu: o Quarteto do Adeus deveria voltar a agir e, agora, sob produção divina! Sugestivamente, não só Jorge Crunei morrera suicidado, mas o outro membro do quarteto ainda não apresentado também se fora assim um pouco antes de Crunei, e por isso não pôde ser convocada também (na verdade, era uma garota, chupada de tanta carga, seu nome era Mávida, suicidou com uma facada no olho). Maria contava assim somente com o seu novo Anjo. Dois seres provavelmente divinos, ainda sem apóstolos ou pedigree, mas já inclinados a espalhar como peste as coisas do céu.

- Maria, ótimas notícias. Marquei o grande evento. Consegui inclusive inúmeras transmissões ao vivo. Também já conseguimos apóstolos, estou providenciando a montagem. Tenha certeza, as pessoas entenderão o recado.

- Não duvido, meu anjo. A Inquisição, além de ser um dos momentos mais sinceros da História, teve a sua mensagem claramente entendida até pela plebe. Guerras e opressão, é só isso que somos, é só isso que entendemos. Principalmente guerra. Conduziremos todos pela força aos portões da conversão. Deus prometeu sim a salvação, mas nunca disse que seria agradável.

Apesar do palavreado pomposo e, sem querer soar exagerado, de fato, o que aconteceu em tal evento marcou para sempre o rumo das coisas (esse parênteses não significa nada). Lembramos aqui que o Quarteto do Adeus tinha antes adquirido imensa fama internacional então foi fácil chamar atenção mundial para tal evento. Mas não foi um show, ou melhor, foi um grande show! No auge, os portões foram trancados e os novos seres apresentados ao público. O mundo caiu embasbacado perante eles. Muitos fizeram fila para a conversão ali mesmo, outros choraram. Ao que tudo indicava, o batismo seria opcional. Porém, logo o plano se revelou. A demonstração fora simples: um gás lançado às pessoas e, entre os atingidos, só os seres de plástico sobreviveram. Antes de alguém perceber realmente o que estava acontecendo, os apóstolos pegaram armas e iniciaram a sagrada correção.

- Percebam, todos! – gritava Maria no auge da celebração - Já veio a nós Aquele reino! Vejam, não somos covardes, estamos atirando em nós também e é essa a nossa mensagem, os convertidos não morrem, nem com a fumaça, nem com o tiro! (mistério)

Obviamente, nesse dia – como em todos da história religiosa – só os convertidos se salvaram. A chacina foi imensa. Mas isso foi só a primeira missão. A ‘palavra’ se alastrava pelo planeta. Dias se passavam e a lei mundial não conseguia se adaptar a tempo de impedir o avanço do plano divino. Os protestos e as conversões se multiplicavam quase que na mesma proporção. Porém, talvez pelo medo ancestral de ficar podre, aos poucos a humanidade cansada se rendia como um todo. No fim de um par de meses a temerária carne humana foi se extinguindo. Se antes havia protestos contra, depois houve festas a favor. Eis uma eterna característica dos homens, viver de tal forma que, quando fuder tudo, já estarão todos prontos pra apreciar.


3.3 – Um erro crasso de biologia

Então deu. O alarde foi tanto que ecoou onde não devia. Não quero aqui forçar a incredulidade do leitor mais do que todo esse relato já tem feito, mas a Verdade, mesmo quando não existe, deve ser dita. O tal acontecido foi que Ele – sim, Deus apareceu – resolveu enfim olhar para o nosso mundo. Digo ‘enfim’ para ajudar os leitores espertos, isto é, os que perceberam que, de sagrado, Maria só tinha o nome. Bola-Nada era tão ‘anjo’ quanto qualquer pipoqueiro pagão e, Jorge Crunei, outro idiota. Aqueles leitores que, além de espertos, forem filósofos, perceberão também como esse relato se auto-anula enquanto argumento. Se iniciei duvidando do poder da mídia, devo agora concordar que, por força interna do texto, o Quarteto do Adeus, mesmo com toda papagaiada em cima e a inegável importância histórica, não passou de um truste midiático. Continuo afirmando que a mídia é impotente, mas agora temo que os homens sejam ainda mais. Ter uma personalidade para aquilo que somos é a melhor maneira de se achar único onde todos são iguais.

Certamente, Deus não gostou nada do que viu. Nossos heróis não tinham mesmo pedigree e se Deus não agisse rápido, ou voltasse o Tempo, tudo se perderia. Santo Agostinho disse certa vez que, diferentemente do cinema, Deus faz seus milagres sem precisar de efeitos especiais. Sendo assim, Deus não voltou o Tempo, não fez as coisas caírem pra cima. Ele simplesmente escolheu aleatoriamente o melhor casal da espécie humana e impôs um acordo:

“Resolvi acabar com tudo. Castigarei a humanidade destruindo-a pois ela só pensa em vingança e destruição. Vocês devem ir para a floresta, encontrem o maior Urso e se ofereçam de comida. Assim, vocês hibernarão no estômago dele. Pois daqui a sete dias vou fazer chover limão por quarenta dias e quarenta noites. Dessa forma, todo aço, plástico ou vida se acabará na Terra. Quando o mundo estiver novamente pronto, vocês serão regurgitados pelo Urso e voltarão e procriarão e a humanidade toda será descendente de vocês.” – e o casal fez tudo conforme Deus havia mandado –

Quando o Urso fez seiscentos e um anos, o limão já havia corroído todos os seres de plástico e a Terra estava novamente boa para ser cultivada. O Urso acordou e viu que as coisas eram belas. Dizem que ele tentou regurgitar o casal, mas urso não rumina, e a História acaba assim.


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