.dos detalhes do apocalipse - segunda trilogia.




2.1 – O Aprofundamento do Golpe

Como dito, Jorge Crunei e seus companheiros cooperaram desde o início com o grande projeto de Maria Conrado, seu pai, e assim conheciam – provavelmente mais que o próprio Maria - todo o procedimento de preparo do novo aço biodegradável. Até esse dia do choro e da depressão, Crunei considerava o conhecimento que tinha de tal projeto como só inútil mas agora vislumbrara o futuro. Ele se lembrou que sabia onde o super-homem estava escondido e isso faz toda a diferença: Jorge Crunei aperfeiçoaria o golpe! Os profundos conhecimentos que possuía em química superficial lhe garantiam, bastava trocar o glitter pelo cabelo do super-homem que o aço poderia substituir até o plástico mundial em maleabilidade suficiente! – a idéia toda é meio boba mesmo mas se fosse só por isso de crítica todo mundo tava é fodido: a tal da beleza da arte foi sublimada em embrulho de festa pois apesar do que ela já representou aos homens, seu único gesto nessa tardia despedida é um pum afinado, que inclusive ela afinou por capricho, pois já não há um só ouvido capaz de ouvir a...

Jorge Crunei foi arrancado de tais e importantíssimos temas quando percebeu um único empecilho fatal a seu plano. Era necessário um pequeno, desculpe o termo técnico, um pequeno grudador de ferro capilar, coisa que não se acha. Qualquer graduadozinho sabe que esses novos televisores de plasma são apenas anagramas químicos de bombas que poderiam gerar forças grudantes... mas tudo junto no fim custaria mais do que Crunei já ganhara em vida. Seu estado era frágil. Essa pequena estúpida idéia vinda da alucinação infantil era a única coisa que o impedia da morte. Seus pensamentos assim lentamente escorregaram para um estado alfa ou beta... lembrou-se das grandes mensagens e dos grandes heróis. Para sobreviver numa grande epopéia como essa era necessário apenas coragem e constância. Que seja feio: coragem e constância! Essas duas palavras, embora soassem péssimas juntas, foram como que as últimas incógnitas decifradas na fórmula para a direção de uma vida que, como qualquer fórmula, está sempre na ânsia de se igualar a zero.


2.2 – Dois patinhos na lagoa

Crunei saiu na calada da noite e vendeu nos mercados da madrugada todos os bens que possuía e, como se não bastasse, correu para um cassino. Isso é coragem! Foi pra roleta e apostou tudo no preto... – será sempre uma dúvida para os homens se são mesmo os deuses que interferem na freqüência do azar pois, para alegria de Crunei, a roleta deu preto. Ele dobrou todo o dinheiro e dobraria novamente. Isso é constância! Jorge Crunei apostou de novo tudo no preto e perdeu dessa vez. Infelizmente. Nada no mundo foi tão ruim quanto essa seqüência de ações. Assim, seu único chão esfacelara-se muito antes de conduzir a algum lugar. Agora sim decidira sua morte. Acabaria como um estúpido qualquer, mergulhado em genialidade. Para um último ato de solenidade perante a vida, não que valha algo, mas aproveitou que ia se matar e convidou um amigo.

Tal membro do grupo ainda não apresentado era, no fundo, o sustento teórico de toda a coisa, Bola-Nada, firme acadêmico e grande bolador do Quarteto. Se havia alguém possível de uma conversa nivelada com Crunei, esse era o Bola-Nada. Apelidado ironicamente por suas habilidades artesanais e conhecido por ser ímpar, Bola-Nada era senão a própria encarnação de um espírito livre ao menos uma boa paródia dele. Jorge conhecia o amigo e fez-lhe o telefonema mesmo de madrugada. Convidou-o para suicidar. Bola-Nada concordou em ir, de início, ao menos pra assistir.

Ao se encontrarem, num timbre carregado de desistência, Crunei já saiu contando-lhe toda a história com precisão. Da fugaz felicidade no cassino aos detalhes da transformação do aço. Fez o amigo escrever o endereço do super-homem, para o caso de não morrer ali também. Depois de dizer isso se calou misteriosamente. Abraçou o amigo, voltou a chorar. Bola-Nada não soube o que fazer.

Jorge Crunei respirou fundo e retirou de sua jaqueta uma arma com uma única munição.

- Sabe roleta-russa? - instaurou-se um silêncio pior.

Ambos observavam a existência das poeiras. Depois, como resposta, Bola-Nada deu uma profunda olhada no amigo e segurou sua mão.

- Só se você for o primeiro, Crunei.

Jorge Crunei aceitou e rodou o tambor sorrindo, mirou na cabeça e se matou.

“Talvez um único posfácio a Crunei seja constatar a impossibilidade de nossa época gerar um autêntico Jesus Cristo. Jorge Crunei, apesar de um ótimo candidato para tal, foi apenas mais uma culpa expiada da atual mania dos homens em eliminar os deuses, mas não os sacrifícios." (dedicado a todos os Jorges Cruneis mortos inutilmente por bandeiras que seria melhor terem limpado a bunda)


2.3 – De quando Deus foi só um bom-dia do Diabo

Bola-Nada saiu correndo dali. Resolveu rapidamente nunca mais pensar nessa história. Porém, não foi sem causa que comentamos sobre os maneios intelectuais de Bola-Nada, pois todo o projeto de Crunei sobre melhorar o aço em plástico tinha sim lá algum fundamento e, acreditem ou não, o próprio Deus ficaria impressionado com isso. Ao menos para Bola-Nada, que não conseguiu abafar um plano megalomaníaco lhe brotando dos ventos cerebrais. O único problema no antigo projeto de Crunei, infelizmente herdado pra o seu, era a tal existência de um elemento com maleabilidade geométrica tão precisa que seria mais fácil o cabelo do super-homem existir. Quem conhece até que ponto pode chegar a fissura inquisitiva de alguém feito pra isso sabe o quanto uma situação realmente boa é capaz de deixar tais indivíduos perplexos durantes meses. Jorge Crunei abalou o cientificismo de Bola-Nada, cujo projeto de vida se tornara agora tão ambicioso que ele redigira um longo tratado antes de pedir ajuda a Maria Conrado, lembramos aqui, seu antigo parceiro no Quarteto e pai do falecido Crunei, assim seria alguém confiável ou, ao menos, era essa a crença de Bola-Nada.

No cair dos dias, porém, Maria Conrado agora desistira do diploma e virara devoto firme. Sua fé, antes de cegar-lhe a razão, aguçara-lhe os sentidos. Maria estava se acreditando missionário divino e isso, por incrível que pareça, se encaixou como uma luva no projeto de Bola-Nada. Maria disse-lhe reconhecer a mão de Deus no longo tratado redigido e queria ajudá-lo. Para demonstrar sua palavra, disse também saber onde conseguir o tal elemento-dificílimo e que o conseguiria em, no máximo, uma semana. Bola-Nada primeiramente não acreditou, mas depois teve certeza da loucura do mundo quando o próprio Maria Conrado contou-lhe, pedindo segredo, que tal material era facilmente conseguido ao se arrancar um fio de cabelo do super-homem e que não era preciso se preocupar quanto a isso, pois o super-homem existe e ele sabia onde o dito estava escondido.

- Que merda é essa?


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.dos detalhes do apocalipse - primeira trilogia.




1.1 - O Quarteto do Adeus


- Era impressionante. Era de tempo verbal, não de tempo de época. Tipo, foi impressionante sacou? Eu lembro quando Deus botou a mão no meu bolso e deixou lá.

Esse era o Crunei. Seu nome era Jorge, mas aí botaram o Crunei de sacanagem. Ele tocava seringa no grupo. O nome deles era obviamente Quarteto do Adeus e ao menos um pouco de sua história merece ser mencionada. Antes, consistiam em um baixão de orquestra, um outro menor e dois violinu. Mas aí aproveitaram o sugestivo e forte nome do quarteto – além da notável inclinação dos músicos – e resolveram encarar o mundo de maneira profundamente sincera. Trocaram os instrumentos por apetrechos de drogas e fizeram arte com aquilo. Uma boa idéiazinha e um mínimo suficiente de talento e ousadia botaram o quarteto como farol de movimentos marginais. Uns furinhos na seringa e ela virou flauta. Rasgar e amassar sedas virou percursão. Fungação também é percursão. Também os isqueiros e as colheres e as eternamente sonoras streichholzschachtel! Grandes sacolas de parangas viraram facilmente bongôs. Garragas e mais garrafas de tudo quanto é coisa ilícita se transformaram em um enorme contraditório de possibilidades sonoras. A arte pode ser uma droga mesmo para os mais fortes de espírito mas a droga sempre é arte até para o mais fraco dos homens. Alastrou feito uma doença.

- Crunei, você já percebeu que absinto dá os sustenidos mais destemido que uma cerveja comum?

- Não.

- Outra coisa. Uísque barato tem um som mais doce-franquejado. Dependendo da música dá.

- Meu... foda-se.

A mídia e os outros tipos de artistas tentaram primeiramente difamar tal projeto lembrando de múmias morais como “sociedade” e “prudência”. Nada impediu. Aproveito para observar que embora os doutotres gritando unissonamente sobre como vivemos a grande época da informação e como a mídia tem um grande controle de quase tudo, isso é naturalmente uma mentira. Os publicitários conseguiram tanto que hoje em dia nem as crianças crêem mais em nada. O mundo sempre adorou drogas e artes, juntas ou separadas. A mídia é hoje como sempre impotente para mudar algo. O Quarteto do Adeus foi aleatoriamente sincero e o reconhecimento é sempre a melhor propaganda. A massa populacional é burra mas grande parte curte uma droguinha. Dados sociológicos provaram certa vez que se você conhece no mínimo três maconheiros você está indiretamente ligado a todas as pessoas no mundo. Isso é suficiente como justificativa de como um grupo socialmente cancerígeno como o Quarteto do Adeus cresceu rápido no coração das gentes.



1.2 – “O Adeus do Quarteto” ou “Do Nascimento do Golpe”


Não só a justiça é feita de dissoluções mas assim como todas as dissoluções ambas são internamente feitas de tal forma que ao se compilarem alguém sempre toma mais pois como dizem todos os xamãs, o poder é um eterno inimigo natural! Assim sendo como que programado, o grupo se desfez. Se desfez rapidamente pela inimizade crescente de dois importantes membros, Crunei, já apresentado, e Maria Conrado, seu pai e, na verdade, grande mentor da idéia.

Seu Maria Conrado era um dançarino aposentado que nesses tempos se dedicava aos estudos; queria morrer senão bacharel, ao menos licenciado. Metera-se em química - reconhecemos que foi uma decisão suspeita – e se esforçara tanto que começou a ter idéias. Misturando perfume, glitter e uns padrões de ferro ele acreditou piamente ter descoberto um novo aço biodegradável. Vendeu quase tudo o que tinha e investiu na descoberta. Chamou seu filho e uns amigos com quem faziam um som e pediu certa ajuda no projeto. Não afirmaremos nada sobre a qualidade do resultado mas é fato que ele conseguiu sim produzir alguma coisa. Maria queira radicalizar ainda mais. Apetrechos de drogas estava algo já muito aceito e digerido pelo público. O Quarteto do Adeus deveria apavorar. Maria queria que o grupo trocasse os apetrechos de drogas por armas assustadoramente mortais que ele mesmo produziria com sua descoberta. Assim, tão avançado em cultura e indústria, ele estaria na vanguarda incondicional do mundo! O Quarteto seria novamente uma novidade absoluta e a sua descoberta iria na rabeira da propaganda. “El golpe perfectum”, pensava ele em latim enquanto dormia.



1.3 – Jorge e os pecados da infância

Crunei não gostou. Argumentou que queria mesmo era investigar – foram essas as palavras – investigar as profundezas puras e mesquinhas da arte e que estava assim irremediavelmente descontente com o rumo do Quarteto. A realidade, porém, provavelmente era seu desgosto vindo de alguma desconexão tão não resolvida que, ao anoitecer, ele chorou descontroladamente durante longos minutos. No meio disso se lembrou de um dia tão ímpar na sua infância que por motivos óbvios tinha antes esquecido. Nem sempre é sutil o caminho da auto-sabotagem.

Nesse longínquo e comic dia da infância brincava ele nos balanços de um pequeno mirante. Ao seguir um suposto aleatório caminho de sua bola ele se distraiu e quando percebeu estava já dentro de uma casa ali na frente. Logo quando entrou se arrepiou. Um vulto passou aos fundos da sala. Foi muito rápido, mas não era preciso mais. Ele tinha certeza do que viu: era o super-homem que entrou voando pela janela e se trocou mais rápido que uma piscada, pendurou o famoso uniforme num esconderijo e, com a mão na barriga, entrou no banheiro. Crunei não lembra como saiu dali e então acreditou ter saído tão depressa da casa que nem percebeu pois logo depois já se viu de volta no mirante com a bola na sua frente, tipo teletransporte. Provavelmente ele estava só tendo sua primeira alucinação mas no entanto ele prometeu a si mesmo esquecer essa idiotice então dá na mesma. De fato, foi preciso uma profunda depressão e longos choros para que ele se lembrasse dessa visão. Como que num acerto divino, de repente, tudo se encaixou.

Jorge Crunei se alegrou. Ao menos um pouco. A roda viva é justa pois necessariamente não conhece nada sobre justiça. A felicidade é a unica coisa confiável nesse mundo pois ela é sempre de quem merece. O giro da Terra definitivamente não é uma prova de que o Sol brilha para todos, pensou ele - desperdiçando filosofia - pois nesse giro o Sol vai escolhendo precisamente a quem iluminar.


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