.o grande salão de poker - um mundo podre.

primeira parte



A profissão tem suas vantagens. Mulheres que homens gastariam milhões se dispõem perante a mim a espera de um mero sinal. Qualquer frase é suficiente para me trazer qualquer uma delas. Sem esforço. Sem criatividade. Masturbar me seria mais trabalhoso. No entanto, não sei se na balança isso era realmente vantajoso.

Pensava em minha sorte considerando coisas assim enquanto atravessava o grande salão de poker. Os pássaros podem se alegrar com o céu, os peixes com a água e o urubu com a carniça, mas o homem só se alegra no jogo. Gostem ou não, o sexo é algo tão exuberante quanto beber água quando se tem sede. Porém o homem já há tempos não é um ser puramente natural. Desenvolvemos modos que nunca farão sentido paralelamente a outro mamífero. Assim, vamos percebendo, criando e incorporando no dia-a-dia situações e modos absolutamente sem ligação nenhuma com foder, comer, dormir ou dejetar. Estamos a tal ponto dentro disso que há hoje poucas ações naturais e a menos natural de todas elas é secularmente difamada na expressão ‘jogo’. Eis minha proposta de definição humana, homem é o animal que joga.

Conseguinte, a excelência de um homem é medida pela sua qualidade enquanto jogador. Grandes homens estão me rodeando e jogando de tudo. O grande salão de poker é democrático e permite todos os jogos. É tão imenso que ainda o estou atravessando e filosofando sobre a porra toda. O inatingível Enersto Tavares está sorrindo me convidando que até paga meu cacife só pelo prazer de sentar comigo. Lady Miu também, com o acréscimo do belo par no decote. Sei o que eles querem. Sei o que todos esses olhos me mirando querem. Simplesmente sigo.

Estou um pouco atrasado mas nada grave. Clarice, aquela loirinha, não tem o direito de se enfezar. Lembrei de quando a conheci. O famoso Fabio Fatia foi contratado pra dar um fim na ninfeta anos atrás. Dizem que o infeliz conseguia cortar um homem vivo em setenta e sete partes impecavelmente iguais. Fiquei com pena da linda menina e contratei o velho e eficiente Seu Pedro Torque pra fazer o teste dessa divisão no próprio Fatia. O velho Torque é um filha da puta quando a encomenda é defunto. Te cobraria barato pra afogar os próprios filhos. Conseguiu encurralar o famoso Fatia mas me entregou apenas um pedaço e meio do infeliz, se posso assim dizer. Falou que é por essas e outras que nunca seria engenheiro. "O talento escolhe as pessoas", me confessou certa vez. O mundo nunca esteve tão convalescente com pessoas do tipo. Conheço no mínimo onze puteiros onde só se pode foder a própria mãe. Quis dizer com essa estorinha apenas que a Clarice ali hoje me deve seu sangue. Mas me paga de outra forma.

- Estou com pressa hoje, é sério. Se puder ser rápida.

- Oi, cavaleiro.

- Me desculpa...

Eu disse isso num ápice de paciência olhando pra ela. A desgraçada era mesmo bonita de doer a vista e bastaria só aquele rosto para ter aos pés a metade do mundo. Nesse caso porém a escassa generosidade da natureza se estende incrivelmente além de um rosto. É impossível elogiá-la suficientemente com palavras educadas. Se fosse persistente, ficaria rica com isso. Ela forçou uma voz de dengo.

- Sua senhora aqui gostaria de lhe fazer um pedido.

- Se não for gastar muito tempo...

- Eu gostaria de guardar um pouco do dinheiro pra tentar ver esse problema no meu pé.

Era verdade. Ela adquirira uma pereba. Ultimamente só fodia de meia. Não sei o que ela quer pedindo isso pra mim.

- Clarice, isso é impossível.

- O remédio é caro e...

- Menina, ficou louca? Esqueceu o que isso significa?

- Não, eu só estou...

- Então por favor, me passa a porcaria da grana e veste uma meia logo que se não me engano você já está atrasada.

- Desculpe.

Clarice me passou o dinheiro com um olhar que desmancharia qualquer coração destreinado – isso me faz lembrar que eu preciso de um aumento -. Dava vontade de no mínimo abraçá-la. Ela sabia disso e então me abraçou sussurrando.

- Você não vem mais aqui, você não pode me deixar sozinha...

Eu saí logo dali. Estava ainda vinte minutos adiantado para minha próxima visita. É bom chegar um pouco cedo pois ainda é dia e a próxima parada é uma japonesa um tanto perigosa. Embora seja da terra do sol nascente, sabe-se lá porque deram a ela o nome de Sebastiana, talvez por ser louca. Não sei se isso tem a ver. Enfim, ela possui maestria nos mais exóticos jogos mas é consistentemente louca desde criança. Nem o nome consegue falar direito a desgraçada. Reservei para ela tempos atrás um quarto num andar especial, do outro lado.

Desci de novo para atravessar o grande salão e infelizmente vi alguém que não via há muito tempo, Manuela. Confesso que ela me desequilibra. Como faria com todos. Como vem fazendo há tanto tempo. Sem exagero, basta qualquer pedaço dela que você olhe fica claro o porquê dela ser uma das mais valiosas. Estava sentada com Dawchóvsky, o francês. O cara era um miserável que enriqueceu num negócio sujo envolvendo contrabando de crianças doentes. Não sei direito. Um tipo sujo. Como é que pode gente assim? Como é que pode gente assim podendo poder a Manuela?

Ela me viu mas fez que não. Depois se levantou da cadeira de tal forma que só essa visão valeria a noite de um homem. Deu um beijo lento na boca provavelmente fedida do francês e veio disfarçadamente em minha direção. Pelo menos conseguiu ser discreta.

- Preciso falar com você...

- O que tá acontecendo? Por que você está falando comigo em público?

- ...

É necessário reforçar que Manuela é uma máquina mexicana que só existe para torturar a alma pequena dos homens. Felizmente eu a tenho nas mãos mas é um tanto difícil não atendê-la quando ela quer realmente pedir. Não importa seu sexo ou idade, você pagaria tudo por ela. Foi andando na minha frente vestida com um vestido de forma mais suficiente possível. Ao sairmos, éramos aparentemente desconhecidos.

Fomos pros fundos e Manuela se mostrou assustada e disparou falando.

- Acho que estão querendo roubar o cassino.

- Porra nenhuma.

- Estou falando, o francês, é coisa grande.

- Manuela, se você estiver de novo tirando uma com...

- É sério, me escuta. Ele acha que eu sou italiana, ficou falando em espanhol
com uns amigos.

- E o que disseram?

- Sei lá. Não entendo espanhol...

Enfiei um tapa na cara dela.

- Vaca.

- Seu filha da puta... estúpido...

Fui enfiar outro tapa mas ela me enfiou um primeiro, vaca.

- Vaca! – eu disse - Fica esperta. Você anda abusando da minha paciência. Esqueceu o que esse tipo de coisa significa?

- Vai tomar no cu é o que significa.

Dei um leve empurrão nela em direção ao salão. Um dos treinamentos que tive para tal profissão é ter sempre em mente o teorema fundamental assim resumido: o problema de trabalhar com puta boa é que você tem sempre que lembrá-las que apesar de serem boas elas ainda são putas. Confesso que acho meio grosseiro, e quando eu possuir influência suficiente pretendo amenizá-lo. Talvez por esse detalhe em minha personalidade eu a perdoei. Deixei-a ir. Sei que não deveria. A benevolência é um dos piores empecilhos quando se tenta viver de modo seguro. Sei que meu destino é morrer por uma delas. Um dia me matarão e eu pressentirei isso tardiamente, com um leve arrepio nos ombros. Quando me enterrarem, o dia seguirá mais normal do que nunca e um dia normal será mais do que suficiente para qualquer uma delas se arrepender de ter me matado. Mas não hoje. Eu estava calmo, hoje não há motivos para preocupação. Um ótimo jogo me espera pelo fim da noite. Tenho que terminar o serviço rápido. Óbvio que não tinha assalto nenhum. Manuela gostava de me ver ensandecido. Ela já me pôs em paranóia inúmeras vezes. Isso é o pior que se pode acontecer no meu trabalho. Não sei como a deixam solta. Não é louca como Sebastiana mas incomparavelmente mais perigosa. Custei pra sacar o tipo dela.

Esperei um tempo e depois entrei pelo outro lado. Manuela é jovem, boa e cara, uma peça rara, mas é idiota. Se não fosse por mim, já teria casado com um qualquer. Hoje, assim como eu, ela tem tudo, inclusive futuro.

Ela quase consegue me deixar preocupado. Isso seria muito ruim pois além de tudo eu ainda tinha que me encontrar com Sebastiana, a japonesa e, desculpe a insistência, é bom ao menos tentar se concentrar para isso. Não estou exagerando. Embora ela esteja no nível das melhores, não é nem de longe tão bonita como as outras. Acreditem ou não, o que vale dinheiro em Sebastiana é a sua loucura. Você, por exemplo, não conseguiria decidir se prefere ela numa mesa ou numa cama.