.dos detalhes do apocalipse - última trilogia.



3.1 – Contribuições para a história do Corpo

Merda ou não, aconteceu. Sabe-se lá de onde veio mas Maria Conrado, talvez por ser agora padre em missão, cumprira com sua palavra. Em menos de uma semana o elemento-dificílimo estava lá. Bola-Nada mal conseguia conter o estremecimento. O dinheiro – que, lembramos aqui, foi a causa de toda ruína do já saudoso Jorge Crunei – nem sequer arranhava a cartilagem preocupativa da nova dupla. Se Bola-Nada estava feliz, não sei dizer o que Maria Conrado sentia. Nunca os religiosos ou os apaixonados ou os nóias sentiram sequer algo parecido (mulheres, deuses e drogas geralmente dão o mesmo efeito). A pedido de Bola-Nada, Maria não mencionou se foi mesmo do cabelo do super-homem que conseguira tal elemento mas mencionou apenas que houveram contribuições místicas e, depois de um gaguejo, inferiu: milagre! O grande Deus olhava diretamente para os dois. Eram eles a base da nova falação divina. Um simples olhar pela história humana de repente se revelou como um longo plano celestial – de Cristo à Crunei – a sociedade é só uma tediosa e irônica indústria para transformar seres-humanos senão em ferro ao menos em plástico; no meio do projeto, Bola-Nada e Maria Conrado se sentiram inspirados pelo Espírito (o que quer que seja isso) e perceberam um novo milagre da biotecnologia: o aço-em-plástico que produziram com o elemento-dificílimo fundia-se na matéria orgânica mammal em perfeita e nunca nem catalogada sincronia.

- Nassa! Vai ver dá até pra ressuscitar o Crunei com isso. Porra, com ressuscitação, aí sim vai ser sagrado!

- Esquece isso, Maria, olha pra mim.

Bola-Nada então, tal qual um exterminador, mostrou-lhe sua nova mão: um absurdo. Parecia tudo normal. Exceto que o branco-azul meio reflexivo na superfície não era luva senão a própria pele de Bola-Nada. Antes ainda de qualquer reação mais intensa de Maria em relação a isso, Bola-Nada abriu o roupão e mostrou-lhe as pernas também trocadas. Foi Maria agora quem sentiu o estremecimento. Apesar do corpo de Bola-Nada transformado boa parte em plástico, Maria, embebido de sua fé, pôde sentir sem dúvida alguma a sagrada ironia de Deus massageando-lhe o coração de carne. “Augúrio altíssimum”, veio-lhe a certeza em latim. Com tal espírito da coisa, Maria Conrado, de lágrimas nos olhos, abraçou o amigo e jurou para todo o sempre lhe chamar somente pela sincera alcunha de ‘anjo’, sem aspas.

- ...pois não importa o que fazemos em vida, alguns estão condenados ao céu. Que seja feita vossa montagem.

Dessa forma, Maria se posicionou na cadeira enquanto o Anjo separava-lhe os remédios e, agora sim, a loucura começou.


3.2 – As raízes da ira divina

Depois da completa transubstanciação de ambos, outra idéia milagrosamente surgiu: o Quarteto do Adeus deveria voltar a agir e, agora, sob produção divina! Sugestivamente, não só Jorge Crunei morrera suicidado, mas o outro membro do quarteto ainda não apresentado também se fora assim um pouco antes de Crunei, e por isso não pôde ser convocada também (na verdade, era uma garota, chupada de tanta carga, seu nome era Mávida, suicidou com uma facada no olho). Maria contava assim somente com o seu novo Anjo. Dois seres provavelmente divinos, ainda sem apóstolos ou pedigree, mas já inclinados a espalhar como peste as coisas do céu.

- Maria, ótimas notícias. Marquei o grande evento. Consegui inclusive inúmeras transmissões ao vivo. Também já conseguimos apóstolos, estou providenciando a montagem. Tenha certeza, as pessoas entenderão o recado.

- Não duvido, meu anjo. A Inquisição, além de ser um dos momentos mais sinceros da História, teve a sua mensagem claramente entendida até pela plebe. Guerras e opressão, é só isso que somos, é só isso que entendemos. Principalmente guerra. Conduziremos todos pela força aos portões da conversão. Deus prometeu sim a salvação, mas nunca disse que seria agradável.

Apesar do palavreado pomposo e, sem querer soar exagerado, de fato, o que aconteceu em tal evento marcou para sempre o rumo das coisas (esse parênteses não significa nada). Lembramos aqui que o Quarteto do Adeus tinha antes adquirido imensa fama internacional então foi fácil chamar atenção mundial para tal evento. Mas não foi um show, ou melhor, foi um grande show! No auge, os portões foram trancados e os novos seres apresentados ao público. O mundo caiu embasbacado perante eles. Muitos fizeram fila para a conversão ali mesmo, outros choraram. Ao que tudo indicava, o batismo seria opcional. Porém, logo o plano se revelou. A demonstração fora simples: um gás lançado às pessoas e, entre os atingidos, só os seres de plástico sobreviveram. Antes de alguém perceber realmente o que estava acontecendo, os apóstolos pegaram armas e iniciaram a sagrada correção.

- Percebam, todos! – gritava Maria no auge da celebração - Já veio a nós Aquele reino! Vejam, não somos covardes, estamos atirando em nós também e é essa a nossa mensagem, os convertidos não morrem, nem com a fumaça, nem com o tiro! (mistério)

Obviamente, nesse dia – como em todos da história religiosa – só os convertidos se salvaram. A chacina foi imensa. Mas isso foi só a primeira missão. A ‘palavra’ se alastrava pelo planeta. Dias se passavam e a lei mundial não conseguia se adaptar a tempo de impedir o avanço do plano divino. Os protestos e as conversões se multiplicavam quase que na mesma proporção. Porém, talvez pelo medo ancestral de ficar podre, aos poucos a humanidade cansada se rendia como um todo. No fim de um par de meses a temerária carne humana foi se extinguindo. Se antes havia protestos contra, depois houve festas a favor. Eis uma eterna característica dos homens, viver de tal forma que, quando fuder tudo, já estarão todos prontos pra apreciar.


3.3 – Um erro crasso de biologia

Então deu. O alarde foi tanto que ecoou onde não devia. Não quero aqui forçar a incredulidade do leitor mais do que todo esse relato já tem feito, mas a Verdade, mesmo quando não existe, deve ser dita. O tal acontecido foi que Ele – sim, Deus apareceu – resolveu enfim olhar para o nosso mundo. Digo ‘enfim’ para ajudar os leitores espertos, isto é, os que perceberam que, de sagrado, Maria só tinha o nome. Bola-Nada era tão ‘anjo’ quanto qualquer pipoqueiro pagão e, Jorge Crunei, outro idiota. Aqueles leitores que, além de espertos, forem filósofos, perceberão também como esse relato se auto-anula enquanto argumento. Se iniciei duvidando do poder da mídia, devo agora concordar que, por força interna do texto, o Quarteto do Adeus, mesmo com toda papagaiada em cima e a inegável importância histórica, não passou de um truste midiático. Continuo afirmando que a mídia é impotente, mas agora temo que os homens sejam ainda mais. Ter uma personalidade para aquilo que somos é a melhor maneira de se achar único onde todos são iguais.

Certamente, Deus não gostou nada do que viu. Nossos heróis não tinham mesmo pedigree e se Deus não agisse rápido, ou voltasse o Tempo, tudo se perderia. Santo Agostinho disse certa vez que, diferentemente do cinema, Deus faz seus milagres sem precisar de efeitos especiais. Sendo assim, Deus não voltou o Tempo, não fez as coisas caírem pra cima. Ele simplesmente escolheu aleatoriamente o melhor casal da espécie humana e impôs um acordo:

“Resolvi acabar com tudo. Castigarei a humanidade destruindo-a pois ela só pensa em vingança e destruição. Vocês devem ir para a floresta, encontrem o maior Urso e se ofereçam de comida. Assim, vocês hibernarão no estômago dele. Pois daqui a sete dias vou fazer chover limão por quarenta dias e quarenta noites. Dessa forma, todo aço, plástico ou vida se acabará na Terra. Quando o mundo estiver novamente pronto, vocês serão regurgitados pelo Urso e voltarão e procriarão e a humanidade toda será descendente de vocês.” – e o casal fez tudo conforme Deus havia mandado –

Quando o Urso fez seiscentos e um anos, o limão já havia corroído todos os seres de plástico e a Terra estava novamente boa para ser cultivada. O Urso acordou e viu que as coisas eram belas. Dizem que ele tentou regurgitar o casal, mas urso não rumina, e a História acaba assim.


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.dos detalhes do apocalipse - segunda trilogia.




2.1 – O Aprofundamento do Golpe

Como dito, Jorge Crunei e seus companheiros cooperaram desde o início com o grande projeto de Maria Conrado, seu pai, e assim conheciam – provavelmente mais que o próprio Maria - todo o procedimento de preparo do novo aço biodegradável. Até esse dia do choro e da depressão, Crunei considerava o conhecimento que tinha de tal projeto como só inútil mas agora vislumbrara o futuro. Ele se lembrou que sabia onde o super-homem estava escondido e isso faz toda a diferença: Jorge Crunei aperfeiçoaria o golpe! Os profundos conhecimentos que possuía em química superficial lhe garantiam, bastava trocar o glitter pelo cabelo do super-homem que o aço poderia substituir até o plástico mundial em maleabilidade suficiente! – a idéia toda é meio boba mesmo mas se fosse só por isso de crítica todo mundo tava é fodido: a tal da beleza da arte foi sublimada em embrulho de festa pois apesar do que ela já representou aos homens, seu único gesto nessa tardia despedida é um pum afinado, que inclusive ela afinou por capricho, pois já não há um só ouvido capaz de ouvir a...

Jorge Crunei foi arrancado de tais e importantíssimos temas quando percebeu um único empecilho fatal a seu plano. Era necessário um pequeno, desculpe o termo técnico, um pequeno grudador de ferro capilar, coisa que não se acha. Qualquer graduadozinho sabe que esses novos televisores de plasma são apenas anagramas químicos de bombas que poderiam gerar forças grudantes... mas tudo junto no fim custaria mais do que Crunei já ganhara em vida. Seu estado era frágil. Essa pequena estúpida idéia vinda da alucinação infantil era a única coisa que o impedia da morte. Seus pensamentos assim lentamente escorregaram para um estado alfa ou beta... lembrou-se das grandes mensagens e dos grandes heróis. Para sobreviver numa grande epopéia como essa era necessário apenas coragem e constância. Que seja feio: coragem e constância! Essas duas palavras, embora soassem péssimas juntas, foram como que as últimas incógnitas decifradas na fórmula para a direção de uma vida que, como qualquer fórmula, está sempre na ânsia de se igualar a zero.


2.2 – Dois patinhos na lagoa

Crunei saiu na calada da noite e vendeu nos mercados da madrugada todos os bens que possuía e, como se não bastasse, correu para um cassino. Isso é coragem! Foi pra roleta e apostou tudo no preto... – será sempre uma dúvida para os homens se são mesmo os deuses que interferem na freqüência do azar pois, para alegria de Crunei, a roleta deu preto. Ele dobrou todo o dinheiro e dobraria novamente. Isso é constância! Jorge Crunei apostou de novo tudo no preto e perdeu dessa vez. Infelizmente. Nada no mundo foi tão ruim quanto essa seqüência de ações. Assim, seu único chão esfacelara-se muito antes de conduzir a algum lugar. Agora sim decidira sua morte. Acabaria como um estúpido qualquer, mergulhado em genialidade. Para um último ato de solenidade perante a vida, não que valha algo, mas aproveitou que ia se matar e convidou um amigo.

Tal membro do grupo ainda não apresentado era, no fundo, o sustento teórico de toda a coisa, Bola-Nada, firme acadêmico e grande bolador do Quarteto. Se havia alguém possível de uma conversa nivelada com Crunei, esse era o Bola-Nada. Apelidado ironicamente por suas habilidades artesanais e conhecido por ser ímpar, Bola-Nada era senão a própria encarnação de um espírito livre ao menos uma boa paródia dele. Jorge conhecia o amigo e fez-lhe o telefonema mesmo de madrugada. Convidou-o para suicidar. Bola-Nada concordou em ir, de início, ao menos pra assistir.

Ao se encontrarem, num timbre carregado de desistência, Crunei já saiu contando-lhe toda a história com precisão. Da fugaz felicidade no cassino aos detalhes da transformação do aço. Fez o amigo escrever o endereço do super-homem, para o caso de não morrer ali também. Depois de dizer isso se calou misteriosamente. Abraçou o amigo, voltou a chorar. Bola-Nada não soube o que fazer.

Jorge Crunei respirou fundo e retirou de sua jaqueta uma arma com uma única munição.

- Sabe roleta-russa? - instaurou-se um silêncio pior.

Ambos observavam a existência das poeiras. Depois, como resposta, Bola-Nada deu uma profunda olhada no amigo e segurou sua mão.

- Só se você for o primeiro, Crunei.

Jorge Crunei aceitou e rodou o tambor sorrindo, mirou na cabeça e se matou.

“Talvez um único posfácio a Crunei seja constatar a impossibilidade de nossa época gerar um autêntico Jesus Cristo. Jorge Crunei, apesar de um ótimo candidato para tal, foi apenas mais uma culpa expiada da atual mania dos homens em eliminar os deuses, mas não os sacrifícios." (dedicado a todos os Jorges Cruneis mortos inutilmente por bandeiras que seria melhor terem limpado a bunda)


2.3 – De quando Deus foi só um bom-dia do Diabo

Bola-Nada saiu correndo dali. Resolveu rapidamente nunca mais pensar nessa história. Porém, não foi sem causa que comentamos sobre os maneios intelectuais de Bola-Nada, pois todo o projeto de Crunei sobre melhorar o aço em plástico tinha sim lá algum fundamento e, acreditem ou não, o próprio Deus ficaria impressionado com isso. Ao menos para Bola-Nada, que não conseguiu abafar um plano megalomaníaco lhe brotando dos ventos cerebrais. O único problema no antigo projeto de Crunei, infelizmente herdado pra o seu, era a tal existência de um elemento com maleabilidade geométrica tão precisa que seria mais fácil o cabelo do super-homem existir. Quem conhece até que ponto pode chegar a fissura inquisitiva de alguém feito pra isso sabe o quanto uma situação realmente boa é capaz de deixar tais indivíduos perplexos durantes meses. Jorge Crunei abalou o cientificismo de Bola-Nada, cujo projeto de vida se tornara agora tão ambicioso que ele redigira um longo tratado antes de pedir ajuda a Maria Conrado, lembramos aqui, seu antigo parceiro no Quarteto e pai do falecido Crunei, assim seria alguém confiável ou, ao menos, era essa a crença de Bola-Nada.

No cair dos dias, porém, Maria Conrado agora desistira do diploma e virara devoto firme. Sua fé, antes de cegar-lhe a razão, aguçara-lhe os sentidos. Maria estava se acreditando missionário divino e isso, por incrível que pareça, se encaixou como uma luva no projeto de Bola-Nada. Maria disse-lhe reconhecer a mão de Deus no longo tratado redigido e queria ajudá-lo. Para demonstrar sua palavra, disse também saber onde conseguir o tal elemento-dificílimo e que o conseguiria em, no máximo, uma semana. Bola-Nada primeiramente não acreditou, mas depois teve certeza da loucura do mundo quando o próprio Maria Conrado contou-lhe, pedindo segredo, que tal material era facilmente conseguido ao se arrancar um fio de cabelo do super-homem e que não era preciso se preocupar quanto a isso, pois o super-homem existe e ele sabia onde o dito estava escondido.

- Que merda é essa?


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.dos detalhes do apocalipse - primeira trilogia.




1.1 - O Quarteto do Adeus


- Era impressionante. Era de tempo verbal, não de tempo de época. Tipo, foi impressionante sacou? Eu lembro quando Deus botou a mão no meu bolso e deixou lá.

Esse era o Crunei. Seu nome era Jorge, mas aí botaram o Crunei de sacanagem. Ele tocava seringa no grupo. O nome deles era obviamente Quarteto do Adeus e ao menos um pouco de sua história merece ser mencionada. Antes, consistiam em um baixão de orquestra, um outro menor e dois violinu. Mas aí aproveitaram o sugestivo e forte nome do quarteto – além da notável inclinação dos músicos – e resolveram encarar o mundo de maneira profundamente sincera. Trocaram os instrumentos por apetrechos de drogas e fizeram arte com aquilo. Uma boa idéiazinha e um mínimo suficiente de talento e ousadia botaram o quarteto como farol de movimentos marginais. Uns furinhos na seringa e ela virou flauta. Rasgar e amassar sedas virou percursão. Fungação também é percursão. Também os isqueiros e as colheres e as eternamente sonoras streichholzschachtel! Grandes sacolas de parangas viraram facilmente bongôs. Garragas e mais garrafas de tudo quanto é coisa ilícita se transformaram em um enorme contraditório de possibilidades sonoras. A arte pode ser uma droga mesmo para os mais fortes de espírito mas a droga sempre é arte até para o mais fraco dos homens. Alastrou feito uma doença.

- Crunei, você já percebeu que absinto dá os sustenidos mais destemido que uma cerveja comum?

- Não.

- Outra coisa. Uísque barato tem um som mais doce-franquejado. Dependendo da música dá.

- Meu... foda-se.

A mídia e os outros tipos de artistas tentaram primeiramente difamar tal projeto lembrando de múmias morais como “sociedade” e “prudência”. Nada impediu. Aproveito para observar que embora os doutotres gritando unissonamente sobre como vivemos a grande época da informação e como a mídia tem um grande controle de quase tudo, isso é naturalmente uma mentira. Os publicitários conseguiram tanto que hoje em dia nem as crianças crêem mais em nada. O mundo sempre adorou drogas e artes, juntas ou separadas. A mídia é hoje como sempre impotente para mudar algo. O Quarteto do Adeus foi aleatoriamente sincero e o reconhecimento é sempre a melhor propaganda. A massa populacional é burra mas grande parte curte uma droguinha. Dados sociológicos provaram certa vez que se você conhece no mínimo três maconheiros você está indiretamente ligado a todas as pessoas no mundo. Isso é suficiente como justificativa de como um grupo socialmente cancerígeno como o Quarteto do Adeus cresceu rápido no coração das gentes.



1.2 – “O Adeus do Quarteto” ou “Do Nascimento do Golpe”


Não só a justiça é feita de dissoluções mas assim como todas as dissoluções ambas são internamente feitas de tal forma que ao se compilarem alguém sempre toma mais pois como dizem todos os xamãs, o poder é um eterno inimigo natural! Assim sendo como que programado, o grupo se desfez. Se desfez rapidamente pela inimizade crescente de dois importantes membros, Crunei, já apresentado, e Maria Conrado, seu pai e, na verdade, grande mentor da idéia.

Seu Maria Conrado era um dançarino aposentado que nesses tempos se dedicava aos estudos; queria morrer senão bacharel, ao menos licenciado. Metera-se em química - reconhecemos que foi uma decisão suspeita – e se esforçara tanto que começou a ter idéias. Misturando perfume, glitter e uns padrões de ferro ele acreditou piamente ter descoberto um novo aço biodegradável. Vendeu quase tudo o que tinha e investiu na descoberta. Chamou seu filho e uns amigos com quem faziam um som e pediu certa ajuda no projeto. Não afirmaremos nada sobre a qualidade do resultado mas é fato que ele conseguiu sim produzir alguma coisa. Maria queira radicalizar ainda mais. Apetrechos de drogas estava algo já muito aceito e digerido pelo público. O Quarteto do Adeus deveria apavorar. Maria queria que o grupo trocasse os apetrechos de drogas por armas assustadoramente mortais que ele mesmo produziria com sua descoberta. Assim, tão avançado em cultura e indústria, ele estaria na vanguarda incondicional do mundo! O Quarteto seria novamente uma novidade absoluta e a sua descoberta iria na rabeira da propaganda. “El golpe perfectum”, pensava ele em latim enquanto dormia.



1.3 – Jorge e os pecados da infância

Crunei não gostou. Argumentou que queria mesmo era investigar – foram essas as palavras – investigar as profundezas puras e mesquinhas da arte e que estava assim irremediavelmente descontente com o rumo do Quarteto. A realidade, porém, provavelmente era seu desgosto vindo de alguma desconexão tão não resolvida que, ao anoitecer, ele chorou descontroladamente durante longos minutos. No meio disso se lembrou de um dia tão ímpar na sua infância que por motivos óbvios tinha antes esquecido. Nem sempre é sutil o caminho da auto-sabotagem.

Nesse longínquo e comic dia da infância brincava ele nos balanços de um pequeno mirante. Ao seguir um suposto aleatório caminho de sua bola ele se distraiu e quando percebeu estava já dentro de uma casa ali na frente. Logo quando entrou se arrepiou. Um vulto passou aos fundos da sala. Foi muito rápido, mas não era preciso mais. Ele tinha certeza do que viu: era o super-homem que entrou voando pela janela e se trocou mais rápido que uma piscada, pendurou o famoso uniforme num esconderijo e, com a mão na barriga, entrou no banheiro. Crunei não lembra como saiu dali e então acreditou ter saído tão depressa da casa que nem percebeu pois logo depois já se viu de volta no mirante com a bola na sua frente, tipo teletransporte. Provavelmente ele estava só tendo sua primeira alucinação mas no entanto ele prometeu a si mesmo esquecer essa idiotice então dá na mesma. De fato, foi preciso uma profunda depressão e longos choros para que ele se lembrasse dessa visão. Como que num acerto divino, de repente, tudo se encaixou.

Jorge Crunei se alegrou. Ao menos um pouco. A roda viva é justa pois necessariamente não conhece nada sobre justiça. A felicidade é a unica coisa confiável nesse mundo pois ela é sempre de quem merece. O giro da Terra definitivamente não é uma prova de que o Sol brilha para todos, pensou ele - desperdiçando filosofia - pois nesse giro o Sol vai escolhendo precisamente a quem iluminar.


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.o grande salão de poker - quando a loucura é bem paga.

segunda parte



Respirei fundo. Precisava resolver a japonesa rápido para poder ir calmamente terminar o dia numa sessão lucrativa adequada. Como disse, a surpresa é consistentemente constante quando se trata de Sebastiana. Com ela, o de repente virá. Mulheres assim são raras. Não importa como ou quanto você se prepara, ela sempre te pega por uma via não protegida, uma opção não analisada. Encontro após encontro. Noite após noite. Anos a fio. No entanto, se eu fosse realmente sincero com minha intuição, havia algo de exageradamente pesado no ar. Sem querer – nem de longe! – soar místico, a energia da Sebastiana era densa, mas não pesada. O clima ali estava pesado. Não acredito que a simples idéia dela me faça isso. Ouso pensar que é algo maior. Decido mesmo assim ou por isso mesmo ir correndo para o quarto dela. Se tem algo realmente acontecendo eu espero estar numa posição vantajosa quando e se merdas rolarem. Estar com Sebastiana é vantajoso, pois tenho sagrado comigo que lá no mais profundo fundo ontológico de todas as coisas há sempre uma dose construída de loucura que decide superfluamente as certezas universais e nos indica um caminho melhor de forma precisa e irredutivelmente individual – mesmo que esteja tudo errado –... eu estava já alcançando a escada quando discretamente porém, um garçom veio falar comigo. Eu realmente não queria falar com empregados.

Sua cara era vagamente familiar, não lembro o nome desse. Ele estava tão tenso com algo que provavelmente me fez confundir seu semblante.

- Senhor, vamos lá pra cima.

- Como?

- Vamos, senhor. Urgente. É que sujou.

- Como?

- Vamos indo. Explico no caminho.

- Amigo, não sei nem quem é...

- Senhor, sério. Não há tempo. Sou da segurança do cassino. Trabalho há mais de um ano pro senhor. Vamos comigo. Explico no caminho.

- Fala já, então.

- Primeiro que a Clarice loira fodia um cara da alta e ele viu o pé dela...

- E daí? O veado nunca pegou pereba?

- Não sei. O fato é que ...

De repente, o garçom fez que ia me salvar de algo e segurou alguém assim que apareceu na minha frente. Ele foi rápido e imobilizou quem quer que fosse. Eu vi em seus braços um par de olhos nervosos me procurando. Isso foi muito estranho, mas era um rosto feminino e até que demais de familiar.

- Mãe?!

- Filho! Eu preciso...

- Mãe, eu não entendo. Porra, mãe, foi a senhora reclamando do pé da Sabrina?

- ...filho?

- Não tem vergonha, mãe? Pagando puta? Olha sua idade!

- Senhor, por favor, acalme-se! - interveio o garçom segurando meu braço e já se desculpando com minha mãe - O rapaz suspeito ao qual eu me referia antes obviamente não era a sua mãe, pelo amor de Deus. O senhor pode estar correndo perigo. Vamos.

- Escute ele, filho, está perigoso, vamos!

- Vamos, senhor. – reinsistiu o garçom.

- Já entendi, caralho.

Entramos os três no elevador e minha mãe começou a falar desesperada.

- Filho, tem gente morta lá fora. A coisa preta, filho. A fita se soltou então algo grande vai acontecer aqui. É melhor chamargh...

O garçom tinha uma arma e matou minha mãe com um tiro direto na testa. Havia silencioso mas o som que mamãe fez morrendo vai me deixar com ânsia de vômito o resto da vida. O sangue se espalhou por todo o elevador. Quando fui ver, o cara estava com a arma apontada pra mim.

- Fica quieto e cala a boca. – me disse.

Ele apertou uns botões e com isso parou o elevador. O cara era bom. Depois pegou o celular.

- Pai, matei a vadia. Sim. Sim. Como? Refém? Eu pensei que... sim... desculpa...

Desligou e ficou com a arma apontada pra mim e me olhando preocupado.

- Cara... - eu disse pra ele sem realmente entender nada do que acontecia – ...sem raiva nenhuma mas podia saber por que mataram minha mãe ou...

Meti um murro na cara dele de repente. O cara caiu e ficou lá. Dei um chute no pescoço pra garantir. Infelizmente, o único lugar seguro em que eu podia pensar era no quarto da Sebastiana. Resolvi pegar a arma do infeliz antes de sair. Um assalto e Sebastiana, que dia. Sebastiana não é só um ganha-pão de psicólogo, nela a zica é genuína mas no fundo ela sabe que se não fosse por mim estaria fodida num hospício estatal qualquer e que, dependendo do que for, é muito fácil voltar pra lá. Ela sabe ao menos o quanto a desgraça é profunda e como eu sou um mero grude nesse imenso lamaçal.

Estou querendo evitar pensar no principal, mas enfim, alguma merda grande! Manuela falava a verdade então. O cassino está sendo fodido. Mamãe disse antes de morrer que a fita preta se soltou. Espero que os deuses da Bahia estejam dormindo. Ela conhecia bem a treta toda e não usaria essas palavras se não quisesse dar a elas significados precisos. Pois bem, quem diria? Acima de tudo, isso vai dar merda. É necessário muita disposição pra permanecer na luta ao roubar assim.

Cheguei no quarto da Sebastiana. Me preocupou muito o fato de que a porta estava aberta, encostada. Respirei fundo. Rezo sinceramente para que ela não tenha fugido na confusão. Abri de mansinho.

- Sebastiana... – chamei.

Não parecia haver ninguém lá. Só não sei pra onde ela iria. Procurei nos cantos da sala parcamente mobiliada. Nada. Resolvi procurar no banheiro mas também nada. Ninguém. É quase impossível se esconder aqui dentro, os móveis e a decoração se resumem em alguns tapetes estranhos e pequenos bibelôs orientais. Voltei pra sala e nada mesmo. Ela fugiu. Foda-se. O melhor é sair desse lugar o mais rápido possível. Espero que ela fique bem. Já estou me arriscando demais pois se me pegarem vão me reconhecer de novo e aí sim eu terei problemas. Vou pelos fundos do cassino. Se acaso lá também estiver cercado temo que será necessário algum improviso impressionante da minha parte. Eu pensava nisso quando tive dificuldades para abrir a porta do quarto até perceber que, na verdade, alguém tinha me trancado ali dentro.

- Sebastiana, não faz isso... - olhei para os lados em vã esperança - ...agora não, abre essa porra.

Obviamente, nenhum barulho. Não sei se isso é também culpa dela mas o fato é que logo depois as luzes foram cortadas. Breu total. Ela poderia muito bem fazer algo assim, já fez pior. O que me deixa em dúvida é que pelos barulhos dos vizinhos nas paredes o cassino inteiro parece estar sem luz. Junta-se a isso essa minha ridícula intuição e acredito que, infelizmente, dessa vez a coisa pode ser bem maior que a mera birra de uma guria, embora louca de verdade. Os gritos e barulhos no cassino começaram a aumentar. O hotel inteiro parecia estar em pânico crescente. Eu precisava pensar em algo urgente.

Há dois tipos de inimigos que atacariam abertamente um grande e evidente monstro, isto é, um grande idiota ou outro grande monstro. Conhecendo a situação como conheço, um grande idiota não teria sobrevivido até esse ponto. O que fecha o leque para uma gama pequena e assustadora de suspeitos. Poderia repetir isso setenta mil vezes invertido até, mas eu realmente espero que os deuses da Bahia estejam dormindo. Infelizmente, escuto o som da porta se destrancando. Minhas orelhas se encolhem involuntariamente e meus rins estalam uma nota tão aguda de chata que não sei por que achei que era fá sustenido. Minhas pernas precisam da parede. Estava com tanto medo que o silêncio me escorraçava numa polifonia pontuda de coceiras nas partes mais cômicas da minha espinha. Eu me contorcia.

Quando resolvo me controlar e prestar atenção em volta, de alguma forma, sinto algo estranho no pescoço e no equilíbrio. Pareço rodar de forma inusitada e cair no chão. Tento me levantar e a consciência vai sumindo. Nos últimos segundos concluo que, de alguma forma, arrancaram minha cabeça.

.o grande salão de poker - um mundo podre.

primeira parte



A profissão tem suas vantagens. Mulheres que homens gastariam milhões se dispõem perante a mim a espera de um mero sinal. Qualquer frase é suficiente para me trazer qualquer uma delas. Sem esforço. Sem criatividade. Masturbar me seria mais trabalhoso. No entanto, não sei se na balança isso era realmente vantajoso.

Pensava em minha sorte considerando coisas assim enquanto atravessava o grande salão de poker. Os pássaros podem se alegrar com o céu, os peixes com a água e o urubu com a carniça, mas o homem só se alegra no jogo. Gostem ou não, o sexo é algo tão exuberante quanto beber água quando se tem sede. Porém o homem já há tempos não é um ser puramente natural. Desenvolvemos modos que nunca farão sentido paralelamente a outro mamífero. Assim, vamos percebendo, criando e incorporando no dia-a-dia situações e modos absolutamente sem ligação nenhuma com foder, comer, dormir ou dejetar. Estamos a tal ponto dentro disso que há hoje poucas ações naturais e a menos natural de todas elas é secularmente difamada na expressão ‘jogo’. Eis minha proposta de definição humana, homem é o animal que joga.

Conseguinte, a excelência de um homem é medida pela sua qualidade enquanto jogador. Grandes homens estão me rodeando e jogando de tudo. O grande salão de poker é democrático e permite todos os jogos. É tão imenso que ainda o estou atravessando e filosofando sobre a porra toda. O inatingível Enersto Tavares está sorrindo me convidando que até paga meu cacife só pelo prazer de sentar comigo. Lady Miu também, com o acréscimo do belo par no decote. Sei o que eles querem. Sei o que todos esses olhos me mirando querem. Simplesmente sigo.

Estou um pouco atrasado mas nada grave. Clarice, aquela loirinha, não tem o direito de se enfezar. Lembrei de quando a conheci. O famoso Fabio Fatia foi contratado pra dar um fim na ninfeta anos atrás. Dizem que o infeliz conseguia cortar um homem vivo em setenta e sete partes impecavelmente iguais. Fiquei com pena da linda menina e contratei o velho e eficiente Seu Pedro Torque pra fazer o teste dessa divisão no próprio Fatia. O velho Torque é um filha da puta quando a encomenda é defunto. Te cobraria barato pra afogar os próprios filhos. Conseguiu encurralar o famoso Fatia mas me entregou apenas um pedaço e meio do infeliz, se posso assim dizer. Falou que é por essas e outras que nunca seria engenheiro. "O talento escolhe as pessoas", me confessou certa vez. O mundo nunca esteve tão convalescente com pessoas do tipo. Conheço no mínimo onze puteiros onde só se pode foder a própria mãe. Quis dizer com essa estorinha apenas que a Clarice ali hoje me deve seu sangue. Mas me paga de outra forma.

- Estou com pressa hoje, é sério. Se puder ser rápida.

- Oi, cavaleiro.

- Me desculpa...

Eu disse isso num ápice de paciência olhando pra ela. A desgraçada era mesmo bonita de doer a vista e bastaria só aquele rosto para ter aos pés a metade do mundo. Nesse caso porém a escassa generosidade da natureza se estende incrivelmente além de um rosto. É impossível elogiá-la suficientemente com palavras educadas. Se fosse persistente, ficaria rica com isso. Ela forçou uma voz de dengo.

- Sua senhora aqui gostaria de lhe fazer um pedido.

- Se não for gastar muito tempo...

- Eu gostaria de guardar um pouco do dinheiro pra tentar ver esse problema no meu pé.

Era verdade. Ela adquirira uma pereba. Ultimamente só fodia de meia. Não sei o que ela quer pedindo isso pra mim.

- Clarice, isso é impossível.

- O remédio é caro e...

- Menina, ficou louca? Esqueceu o que isso significa?

- Não, eu só estou...

- Então por favor, me passa a porcaria da grana e veste uma meia logo que se não me engano você já está atrasada.

- Desculpe.

Clarice me passou o dinheiro com um olhar que desmancharia qualquer coração destreinado – isso me faz lembrar que eu preciso de um aumento -. Dava vontade de no mínimo abraçá-la. Ela sabia disso e então me abraçou sussurrando.

- Você não vem mais aqui, você não pode me deixar sozinha...

Eu saí logo dali. Estava ainda vinte minutos adiantado para minha próxima visita. É bom chegar um pouco cedo pois ainda é dia e a próxima parada é uma japonesa um tanto perigosa. Embora seja da terra do sol nascente, sabe-se lá porque deram a ela o nome de Sebastiana, talvez por ser louca. Não sei se isso tem a ver. Enfim, ela possui maestria nos mais exóticos jogos mas é consistentemente louca desde criança. Nem o nome consegue falar direito a desgraçada. Reservei para ela tempos atrás um quarto num andar especial, do outro lado.

Desci de novo para atravessar o grande salão e infelizmente vi alguém que não via há muito tempo, Manuela. Confesso que ela me desequilibra. Como faria com todos. Como vem fazendo há tanto tempo. Sem exagero, basta qualquer pedaço dela que você olhe fica claro o porquê dela ser uma das mais valiosas. Estava sentada com Dawchóvsky, o francês. O cara era um miserável que enriqueceu num negócio sujo envolvendo contrabando de crianças doentes. Não sei direito. Um tipo sujo. Como é que pode gente assim? Como é que pode gente assim podendo poder a Manuela?

Ela me viu mas fez que não. Depois se levantou da cadeira de tal forma que só essa visão valeria a noite de um homem. Deu um beijo lento na boca provavelmente fedida do francês e veio disfarçadamente em minha direção. Pelo menos conseguiu ser discreta.

- Preciso falar com você...

- O que tá acontecendo? Por que você está falando comigo em público?

- ...

É necessário reforçar que Manuela é uma máquina mexicana que só existe para torturar a alma pequena dos homens. Felizmente eu a tenho nas mãos mas é um tanto difícil não atendê-la quando ela quer realmente pedir. Não importa seu sexo ou idade, você pagaria tudo por ela. Foi andando na minha frente vestida com um vestido de forma mais suficiente possível. Ao sairmos, éramos aparentemente desconhecidos.

Fomos pros fundos e Manuela se mostrou assustada e disparou falando.

- Acho que estão querendo roubar o cassino.

- Porra nenhuma.

- Estou falando, o francês, é coisa grande.

- Manuela, se você estiver de novo tirando uma com...

- É sério, me escuta. Ele acha que eu sou italiana, ficou falando em espanhol
com uns amigos.

- E o que disseram?

- Sei lá. Não entendo espanhol...

Enfiei um tapa na cara dela.

- Vaca.

- Seu filha da puta... estúpido...

Fui enfiar outro tapa mas ela me enfiou um primeiro, vaca.

- Vaca! – eu disse - Fica esperta. Você anda abusando da minha paciência. Esqueceu o que esse tipo de coisa significa?

- Vai tomar no cu é o que significa.

Dei um leve empurrão nela em direção ao salão. Um dos treinamentos que tive para tal profissão é ter sempre em mente o teorema fundamental assim resumido: o problema de trabalhar com puta boa é que você tem sempre que lembrá-las que apesar de serem boas elas ainda são putas. Confesso que acho meio grosseiro, e quando eu possuir influência suficiente pretendo amenizá-lo. Talvez por esse detalhe em minha personalidade eu a perdoei. Deixei-a ir. Sei que não deveria. A benevolência é um dos piores empecilhos quando se tenta viver de modo seguro. Sei que meu destino é morrer por uma delas. Um dia me matarão e eu pressentirei isso tardiamente, com um leve arrepio nos ombros. Quando me enterrarem, o dia seguirá mais normal do que nunca e um dia normal será mais do que suficiente para qualquer uma delas se arrepender de ter me matado. Mas não hoje. Eu estava calmo, hoje não há motivos para preocupação. Um ótimo jogo me espera pelo fim da noite. Tenho que terminar o serviço rápido. Óbvio que não tinha assalto nenhum. Manuela gostava de me ver ensandecido. Ela já me pôs em paranóia inúmeras vezes. Isso é o pior que se pode acontecer no meu trabalho. Não sei como a deixam solta. Não é louca como Sebastiana mas incomparavelmente mais perigosa. Custei pra sacar o tipo dela.

Esperei um tempo e depois entrei pelo outro lado. Manuela é jovem, boa e cara, uma peça rara, mas é idiota. Se não fosse por mim, já teria casado com um qualquer. Hoje, assim como eu, ela tem tudo, inclusive futuro.

Ela quase consegue me deixar preocupado. Isso seria muito ruim pois além de tudo eu ainda tinha que me encontrar com Sebastiana, a japonesa e, desculpe a insistência, é bom ao menos tentar se concentrar para isso. Não estou exagerando. Embora ela esteja no nível das melhores, não é nem de longe tão bonita como as outras. Acreditem ou não, o que vale dinheiro em Sebastiana é a sua loucura. Você, por exemplo, não conseguiria decidir se prefere ela numa mesa ou numa cama.

.tal como limão pra limonada.

- ou desobservações sobre a culinária francesa -


(Deleuze, diz que filósofo francês)














O caráter simbólico se mostra desafiadoramente como a única tradição possível a se superar ou se abandonar na consideração do topo secreto da Arte hoje se remistificando ao se desmistificar na descida em pequenas mentiras isoladas no preenchimento dos espaços publicamente acessíveis mas internamente subjugados por um subjetivismo passante de modo vertical e hierarquicamente formal sob as próprias possibilidades duvidáveis e escoantes da utilização simbólica fingida numa obscuridade de sensações esteticistas auto-desnuviadoras de um diletantismo cuja tarefa é eliminar ou entorpecer os objetivos do símbolo para dar-lhe um cunho politicamente sustentável e pedantemente assegurar o pão ou a saúde de uma parcela social vingativa e ansiosa em diluir as bordas comunicativas e até etereamente destacadas contra os pré-rascunhos-auto-denominados-filosofia-ou-arte-tanto-faz-já hoje já adorados pois são adoráveis corrosivos edificantes necessários a um gosto de plebe vindo daquela bile de ódio desses mesmos desavisados sobre o terreno delicado e perigoso do medo à fruição superior aprendido a temer e a amar através das lições diárias de shoppingcenter com joviais respiradas de consumo de oxigênio revolucionário no pano de fundo da percepção artística anteriormente adquirida nas etapas do abismo intransponível entre as explosões significativas e as rubricas vazias da possibilidade da nova abstração secularmente calejada na famosa “opressão do sistema” torpe e consciente sobre o lucro da firmação no não-significativo ao patamar de qualquer curioso ingênuo consumidoramante da áurea genial dos antigos já mortos ou dos vivos desenquadrados pela visão-de-calcanhar e por isso mesmo ambos descontemporaneizados na democratização dos conceitos em prateleiras onde nem um apontamento solto ou um leve direito de duvidar do preço já não são mais possíveis nem desejáveis ao se admitir a intromissão de dedos sujos em algo mais sujo ainda dentro da própria aposta simbólica do uso culturalmente cultuado em observar outra áurea também antiga mas agora sendo um intelectual representante de um suposto “povo” inexistente em qualquer época ou lugar se traindo ao se revelar assim com o máximo de claridade possível como o escoamento e a descarada caluniação dos símbolos significantes é uma nova arma alienativa de destruição das possibilidades raramente percebidas porém únicas sobre um desejado não-estacionar da caminhada de uma sociedade feita não só por tijolos e cimentos (é possível ver os tijolos e os cimentos sem os c.a.r.a.c.t.e.r.e.s? (estamos diante do inverso do pedido para se ler a seguinte palavra “________.”)) nos faz pensar apenas sobre a real e eterna necessidade de atropelamento contra as vinganças da não-percepção estética no simples e hoje geralmente ignorado fato de que – e, vejam bem, não importando aqui o "nível" do seu francês – o limão é e será sempre uma verdade essencial na invenção de qualquer tipo de limonada.