. acordar ao lado seu... .




Acordei puto. Algo tinha acontecido e nada me vinha à mente. Não tenho boas lembranças quando não me lembro das coisas. Talvez era o lençol que estava um pouco fedido. Infelizmente dava para se ouvir um jazz vindo de algum lugar. Acordei com aquela louca do meu lado já me olhando. Ela tinha uma cara impossível de se enfiar a mão no taposo. Digam o que quiseram, Deus só abençoa e protege as mulheres bonitas. O diabo é uma senhora feia insistentemente atraente e muito bem escondida entre as suas mais seguras manutenções da vida diária. O mal é tudo o que te explode com carência suficiente pra ainda fingir que nada aconteceu. Eis o perigo do excesso diário. Eu tentei sinceramente pensar em todas essas coisas mas nada funcionou, aquela desgraçada ficou me comendo a boca com os olhos. Nunca conheci ninguém que olhasse tão bem quanto ela. As pessoas deviam aprender que não é necessário conhecimento, dinheiro ou talento. O que precisamos para nos dar bem nessa vida é olhar na boca dos outros. A dama aqui no caso sabia disso. Já era impossível ignorá-la.

- Fala, já aviso que não lembro nada.

- Sério? A mim pouco importa...

- Então some.

- Eu tentei mas disseram que não posso sair.

- Quem disseram?

- Vai me salvar, herói?

De repente ela me beijou. O sabor era parecido com água suja de pia amanhecida. O som pulsava muito rotineiramente no jazz rapidíssimo com escalas escaldantes de saxofones e coloridos pianísticos de acordo com as medidas do ouvido feito milimetricamente pra coisas assim. Nada muito interessante. Terminei de lamber a cara dela e percebi que estávamos num quarto improvisado e o som vinha de fora.

A moça era linda mas entre outras coisas parecia chata pra catiça.

- Princesa, onde estamos?

- Onde mais? - me olhou transtornada - Num putero!

- Mas então você é uma...

- Estou brincando, tigrão. Estamos na casa da minha mãe. Ela é pianista. Por isso o som.

- Se ela fosse realmente pianista não escutaria jazz.

- Isso não é jazz, é Roberto Carlos.

- Mesma merda.

Óbvio que era jazz. Roberto Carlos nunca cantou em russo. Segurei a rapariga com força.

- Vaca mentirosa. Que porra tá acontecendo?

Ela enfiou um leve tapinha na minha cara. Depois veio me dar um beijo daí eu enfiei um tapa na cara dela. Devia ser louca. Me olhou com susto, desiquilibrada. Depois deixou-se cair no lençol. Parecia que ia deixar por isso mesmo. Então fui me levantar e fiquei parado. Não entendi.

Fui me levantar novamente e fiquei parado.

Minhas pernas quase não se moviam.

- Caralho. Quem é você, porra?

Isso me assustou muito. Tenho antecedentes. Uma gigantesca cicatriz atrás embaixo na costela. Foi anos antes. Fizeram tudo certo até certo ponto. Uma graciosa adolescente, locais e bebidas apropriados. Eram bons médicos e conhecedores. Diz que me desmaiaram e me abriram com precisão. A merda foi quando tentaram tirar a porra do rim. Erraram sei lá o que e me fecharam urgente de qualquer jeito. Um dia depois, fui internado no hospital. Uma inflamação generalizada me deixou em coma e no final acabei não perdendo um rim, mas sim dois. Algum tempo vivendo de aparelhos e então dentro do prazo propício um bendito compatível me fez o favor de morrer e doar os pedaços. Me fizeram o transplante, mas só puderam me dar um rim então eu fiquei só com o esquerdo. Agora, anos depois, a cosmologia só podia estar me sacaneando.

- Quem é você porra?

- Na verdade, eu já disse. – respondeu a ninfeta se levantando - Isso mesmo, sou uma puta.

- Não lembro de pedir puta!

- Você já falou, não lembra de nada. Mas eu posso fazer de novo. Temos o dia todo mesmo.

Ela disse isso e foi levantando a blusa, olhando pra mim. Sempre fui devoto de Nossa Senhora mas duvido que contemplar a santa em toda sua glória seja mais divino que olhar essa jovenzinha gostando de se despir pra mim. Meti um murro na cara dela.

Ela caiu no chão por cima do criado. Derrubou uma garrafa ou sei lá o quê que caiu e quebrou fazendo um barulho do inferno. Levantou e me olhou ensandecida.

- Veado... – disse me apontando uma pequena cimitarra.

- Uma cimitarra? Vai fazer o quê, arremessar?

Ela arremessou. Acertou profundamente na minha coxa esquerda. Eu quase não senti e então arranquei rápido e joguei nela de volta. Mas errei. Havia algo muito errado com minhas pernas. Eu quase não senti. O sangue se espalhava pela cama.

- Sua vaca. Por que cê tá fazendo isso?

- Você que me atacou, desgraçado!

Ela correu e alcançou a cimitarra no chão. Apontou pra mim de novo, ainda ensandecida.

- E minhas pernas? – gritei antes que arremeçasse – E essa cimitarra? Pra quê essa cimitarra então?

- Proteção contra putos que nem você!

- Olha aqui, puta aqui é você, caralho. Você me...

Ela arremessou de novo e errou mas quando fui ver ela também tinha pulado na cama com um grande pedaço de caco de vidro na mão pra tentar me matar decerto. Era definitivamente louca. Não mirava em lugar nenhum e talvez isso a tornasse mais perigosa ainda. Felizmente, consegui segurá-la sem maiores danos. Imobilizei apertando forte o pescoço.

- Otária. Perdeu, otária. Otária. Agora você vai colaborar. Que porra tá acontecendo aqui? Vou rebentar sua cara e fuder seus brodi tudo, cê tá me entendendo? - ela não parecia ceder mas bastaria ser mais incisivo no pescoço – Agora entendeu, não entendeu?

- Eu.. falo... - sussurrou.

Permiti um pequeno alívio. Ela respirou um pouco.

- Fui... contratada pra te... só pra você me comer... não sei quem foi...

- Mentira sua vaca, você é membro de gangue de rim!

- Não! - ela pareceu realmente assustada - Não sei nada de rins. Não sei nada. Juro que não. Juro que não! Eu só fui contratada pra foder. Os outros talvez...

Nem deixei terminar de falar e comecei a enforcá-la pra matar. Vaca inútil. Caozêra do carai. Ia morrer rápido e já estava quase morrendo quando enfim ela conseguiu enfiar profundamente o pedaço de vidro na minha barriga. Aquilo pareceu uma hélice furiosa me rasgando as tripas. Eu soltei um grito pavoroso mas não larguei a puta. Pelo contrário, enforquei mais forte. Senti uma dor escorrer por lugares errados dentro do meu corpo. Ela puxou de volta o vidro e enfiou novamente. Não sei o que foi pior. Cuspi sangue na cara dela e continuei enforcando. Com tudo. A vagabunda já estava quase roxa sem ar, babando muito, nariz escorrendo e ainda assim me enfiou o vidro mais três vezes. Senti o pulmão perfurado. O sangue já escorria em abundância. O pescoço dela amassava igual alumínio.