. da lata ao caos .





Maurino, Lalau e Zeladô se encontraram esquisitíssimos. Ali porém não havia mar. Só imensos terrenos baldios e um galpão. A noite já se aprofundava na madrugada. Os moleques não se olharam direito ou se falaram. Também não era necessário. Tudo já estava rascunhado. Foram os três com passos idos. Entraram no galpão como criminosos, um buraco no forro feito só pra isso. O galpão era antigo e abandonado. Longe e sem vizinhos. Enfim um momento. Não é sempre que o vento está a favor. As engrenagens se abraçam. Os parâmetros se reposicionam sem inconvenientes e o acaso se perde em algum lugar além do medo e da ousadia fazendo com que a porra toda desista de ser Deus e se converta num fiel facilitador aos desejos marginais.

Uma conversa sem querer, um tapetão ali, colheita de sinais, outro tapetão. A equação se fecha. O momento aparece. O motivo da coisa toda pode soar estranho a quem acaso não esteja acostumado. No entanto, alguns conhecem e sabem o que é, a um trio composto por inclinação, ter pela primeira vez um bom lugar para dar tiros, aos alvos, à noite.

Havia porém uma única arma com eles. Em contraponto, carregavam com cada um uma mochila abarrotada de munição. Colaboração mecânica do acaso. Iriam revezar o revólver. Incontáveis alvos no galpão. A noite seria divertida e barulhenta.

Entraram e de repente um estrondoso agudo zunido explodiu ecoando nas paredes. Zeladô se abaixou e ficou por um instante surdo de susto. Maurino o olhou sorrindo. Olhos esbugalhados.

- Dei um tiro.

Zeladô foi levantando e os sentidos voltando ao normal. Maurino estava eufórico.

- Você tem que dar um também. Temos muito! Agora mais ainda. Uma mochila e meia pra cada um. Veja.

Maurino disse apontando pro Lalau caído sem metade da cabeça.

- Matou o cara, meu? Véio, porra?

- Ah, me deixa. Melhor pra você. Segura a onda. De repente eu pensei e era isso mesmo. Sou assim, foda-se. Acabei de decidir e eu ainda fui sensato, quer ver? Eu ia virar matador assassino, cara. Sangue no olho, saca? Tinha decidido na verdade. Daqueles que ninguém pega. Mas logo bateu consciência. Moralidade, meu. Não se pode sair matando os outros. Tem que ter motivo. Mesmo assim é foda. Tem gente que não merece. Resolvi então sossegar mas é difícil mas eu sosseguei só que quando consegui pensar num motivo nobre. Eu vou matar pra salvar os inocentes, sacou?

- E que merda o Lalau tinha a ver com essa porra, caralho?

- Então. Ele é um mártirio! Saca martírio?

- Mártir?

- Não, Marte é o nome de um planeta, acho.

- Mártir...

- Foda-se. Ele é o cara em que eu vou descontar tudo, porra. O único inocente! Pensei nisso e achei perfeito. Só fiquei meio indeciso qual dos dois seria o cara. Mas de boa.

- ...

- Esquenta não, no fundo nunca ia ser você. Lalau sempre foi mais careta. A caretice é o ópio do mundo. Agora esquece isso e olha as mochilas, estão cheias. Vamos poder atirar nele a noite toda!

- Véio, tu ainda vai ficar atirando no cara, porra meu?

- Mas é essa a idéia. Penso em cada um que quero matar e dou um tiro nele. Depois penso por grupos de personalides, dou um tiro, etnias, dou um tiro, faixa etária, dou um tiro, singularidades pessoais, dou um tiro, gente famosa, ...eu ia até esperar um tempo e escrever tudo mas acho que o improviso é mais no clima. Quer ver? Bem, minha mãe!

Disse e atirou no resto da cabeça de Lalau.

- Que porra! Tu é doente, meu.

- Cara, isso é bom demais! Puta merda!

- Véio, tu tá zuado.

- Se fode, oto. Vai falar então que não quer. Eu sei que tu quer. Ou prefere ir pra casa dar boa noite pra mamãe do inferno e dormir? Tu não é otário. Dá um tiro. Vamos. Dá no teto, se não tem culhão pra atirar em gente, dá no teto. Até melhor, o Lalau fica mais inteiro pra mim. Vamo. Atira, quero vê quando sentir o coice do cavalo. - Maurino fez uma pequena pausa talvez por questões de eloquência – Escuta, pelo menos agora eu não vou sair por aí que nem loco matando todo mundo. Matei o Lalau, e salvei um monte de inocente. Você por exemplo, óbvio que ia rodar. Bundão ainda. Nem tiro dá. Quero ver se tu é muito loco mesmo. Quero ver se escolhi certo.

- Véio, cala a boca.

Zeladô disse isso e pegou a arma da mão de Maurino. Depois foi andando com passos lentos pro centro do galpão. Respirava devagar. Chegou e olhou pro teto. Forçou as vistas e passeou silenciosamente o olhar. O galpão inteiro se silenciou. Zeladô parecia analisar o encardido e os detalhes da laje. Se aprumou. Segurou a arma com as duas mãos. Apontou pro teto. Olhou pro chão. Então ficou parado. Era como se estivesse nervoso ou indeciso. Não fez mais nada. Ficou nessa pose em silêncio. Depois de um tempo, abaixou as mãos e se endireitou. Respirou fundo. Voltou andando pra perto do Maurino que o observava ansiosamente.

Zeladô passou quieto por Maurino e deu um tiro no Lalau morto no chão sem cerimonia. Logo depois, atirou denovo. Então ficou frenético e descarregou o resto do tambor no peito do defunto. Só parou porque acabou munição. Maurino o observava como quem vê algo sagrado, seus olhos brilhavam e sua boca tremia. Foi falar com ele.

- Eu sabia! Nunca erro essas coisas. Não é maravilhoso? Agora é minha vez mas na verdade, cara, acabei de pensar numa fita. - Maurino disse isso puxando Zeladô pela camisa - Cara, é isso mesmo! Esse é o momento. Chegou nossa hora. Temos que aproveitar isso daqui. Você tá sentindo que essa é hora, não tá sentindo? A gente tem que pular também. Mas antes, só um minuto... - Maurino recarregou rapidamente o revólver - Preciso dar mais uns. Você quer?

Maurino perguntou mas nem escutou a resposta pois começou a descarregar a arma no peito do Lalau defunto. Enquanto atirava, ele pulava parecendo feliz. Começou a cantar. Dançou, cantou e atirou de tal forma que ao terminar se ajoelhou cansado e respirou rápido. Fez uma pausa.

Zeladô ficou ali olhando pra ele. Maurino continuava ajoelhado. Alcançou a mochila e ali mesmo recarregou a arma. Depois levantou. Respirou fundo e então lentamente foi olhando pro Zeladô com os olhos tão brilhantes e ocos que pareciam não só prever como também antecipar o apogeu do apocalipse. Mostrou-lhe a arma.

- Zeladô, pelo instante sagrado da existência, cara. Estamos vivendo um momento ímpar. O universo inteiro conspirou para que estivéssemos aqui hoje carregado desse jeito. Não podemos ignorar. A hora é agora, vamos pular também. A gente precisa morrer. Nós dois, hoje. Mas a gente só tem uma arma então alguém vai ter que morrer primeiro e o outro vai ter que se matar depois na sequência. Na confiança, na broderage. Não tem outra saída. Sei que tu quer. Eu estava pensando, você é honrado suficiente pra isso. Eu sou um bosta. Sou capaz de te matar, não suicidar e ainda tirar você de otário pros outros. Isso quer dizer que você vai ter que fazer isso, cara. Por nós. Pelo Lalau. Você me mata e depois suicida. Eu não ia conseguir. Sei que tu concorda mas tem que ser agora. Senão a gente desiste. - Maurino disse isso mirando na própria cabeça e forçando o Zeladô a segurar a arma também - Tem que ser agora. Eis o momento.

Maurino então atirou e explodiu metade da própria cabeça. Zeladô arregalou os olhos e ficou estático. Todo sujo de sangue e com a arma na mão. Depois começou a tremer. Tremer muito. Olhos parados. Começou a suar também. Deu uns passos sem direção e continuou tremendo.

- Filho da puta. Seu desgraçado filho da puta. Desgraçado. - disse isso fechando os olhos e enfiando a arma na própria boca – Merda de veado. Filho da puta. – e então atirou explodindo assim a sua metade.