. o mistério do banheiro hindu .




Então estava lá. Eu sabia que bar é uma coisa pra vida toda. Só não gostava mais da boca seca às seis da manhã depois de uma cansativa noite sensitiva que ultrapassava o sol nascendo e saindo junto com outra cerveja. O bairro fétido amanhecia equivalentemente. O bar era oco por dentro. Porém ainda estava cheio de bêbados perdidos e balbuciantes do gênero. Tudo continuava normal e azedo mas de repente estremeci.

Minha pele virou plástico. Eu me arrepiei e me cozi ao frio por dentro. Foi que, do nada, uma tal de Rafaela, deusa hindu de costas invertidas, começou a falar dentro da minha alma. A deusa me chamava no banheiro, disse que estava me conjurando! Olhei pros lados. Ninguém mais ouvia. Obviamente, podia muito bem ser eu pirando mas o sentimento era forte. Antes, jurava me encontrar sozinho com a garrafa. Bebi sozinho e bem a noite toda. Não tinha ouvido nada até então. Agora, a deusa. Aposto minha vida como esse é o mais raro dos sentimentos.

Era tão forte que levantei tão rápido que o casal do lado percebeu. A moça na mesa me olhou de maneira estranha, não gostei do olhar dela. Parecia me pedir pra não ir ver Rafaela. Como ela sabia sobre a deusa?

- Desculpa, a senhorita olha o quê?

Percebi no namorado dela um movimento como de quem aguenta o último insulto. Ele se levantou já dizendo coisas pra mim, obviamente não escutei e lhe enfiei um ótimo soco no pescoço. Ele caiu no chão e o clima no bar ficou tenso. É excitante coisas assim logo de manhã. A moça olhou pra mim com olhos pesados mas não parecia triste ou amedrontada. Era mais sublime, parecia suplicar por algo. Foi impressionante mas, de repente, ela se jogou no meu colo.

- Esqueça Rafaela... – me sussurrou.

Escutou-se então um tiro estrondoso. Fedorento e esfumaçado. Todo mundo no bar se assustou e boa parte foi embora esquecendo a conta porém a moça no meus braços se abafou e murchou toda. Ficou cinza. Foi caindo pro chão. Eu fiquei ali olhando-a indo com olhar sumido até que ela, de repente, cuspiu na minha cara. Cuspiu sangue. O namorado estava parado logo atrás, com a fumegante arma ainda na mão. Estampava uma tristeza fúnebre.

- Terá a sua recompensa, seu imundo. – me disse e jogou a arma no chão - Confio na justiça de Rafaela.

- Porra. Que merda é...

Então senti pra parar de falar. Parecia o sentimento da deusa me invocando de novo. Tentei ignorar com tudo mas era difícil. Algo estava saindo muito errado e a coisa já tinha ido longe demais. As pessoas restantes no bar não tiravam os olhos da gente. Peguei o último resto de cerveja que tinha na minha garrafa e bebi. Fui até a mesa ao lado da moça e bebi o deles também. Respirei fundo.

- O diabo!

Pensei e saí correndo. Que se exploda a Rafaela, deusa do caralho. Bando de louco. Quando então lembrei que ainda não tinha pago a conta percebi também que não tinha saído do bar e uns guardas me puxaram de volta. Pareciam fortes e zangados e mudos também. Só faltou latirem. Com eles, o namorado da moça. Chegou confirmando com a cabeça e apontando o dedo pra mim.

- Prendam esse cretino! Seu infeliz cara-de-pau. Porcaria imunda. Você vai apodrecer na cadeia, seu merda. Eis o poder da vingança cósmica agindo com toda sua sutileza. Bem vindo ao mundo de Rafaela!

Ao ouvirem o nome dela os guardas me soltaram com decisão unânime. Deram uns passos assustados pra trás e saíram correndo.

- Porra do caralho. Que merda é essa? - eu falei, óbvio.

O namorado não sabia o que pensar porém, em mim, bateu o sentimento raro de novo. Era impossível evitá-lo. Parecia um gancho na nuca me puxando. A Rafaela ainda me esperava no banheiro e então eu concluí que já estava mesmo tudo banhado em merda e eu até no quimba então foda-se. Procurei com os olhos o garçom.

- Onde é o banheiro? Aquele da Rafaela.

- Meu senhor, nós não temos banheiro.

- Como? Tem certeza?

- Acredito que sim, senhor. Não temos.

- Não tem o que? Certeza?

- Não temos banheiro, senhor.

- Porra, e a Rafaela? Que porra é essa então?

- Desculpe, senhor, não tenho culpa.

- Culpa? Caralho? – olhei pros céus questionando.

Não sei se foi por isso mas de imediato escutou-se algo vindo dos fundos do bar. Parecia um zunido sem frequência. Isso fez todo mundo ali se sentir como morcegos formando imagens embaçadas através de barulhinhos esquisitos no meio da manhã. Não foi sinistro mas só estranho. Aposto que todos ali se sentiam como eu, de cabeça pra baixo e semitiltado. Numa questão de segundos, o mundo ecoava distante e ansioso à espera de algo.

Oito minutos depois, a gente continuava do mesmo jeito.

Nada mais interessante aconteceu nessa manhã.