. um passeio pela noite .



Era tarde da noite. Tércio desceu do prédio e encontrou seu vizinho Dom Marone de um modo um tanto inviesadamente calmo. Marone sorriu pro Tércio e disse:

- Tércio, grande Tércio! Se você se chamasse Pedro eu teria dito: Pedro, grande Pedro!

- Não venha me cobrar hoje, seu poeta de merda. Não me esqueço que além de um inútil você ainda é dono dessa porra.

- Acalme-se, Tércio. Senão daqui a pouco eu te chamo de Pedro, ou Terço! - gargalhou Dom Marone - Um terço, dois terço! - disse gargalhando.

- O senhor está se exaltando. É melhor calar a porra da boca senão eu espalho tudo sobre as patroas e suas escravinhas, as bugrinhas. Eu sei de tudo. Sua sorte é que estamos indo para metrôs diferentes. Eu iria espalhar pra todo mundo. Comprar agora cartazes. O dedo na sua cara. Sua vida moral morreria agora. Dê graças ao metrô! - Tércio disse isso e também gargalhou com eloqüência.

- Manere o sarcasmo. - respondeu Marone de imediato e com estilo - Que os metrôs não sejam desculpas. Eu vou com você.

- Está me provocando, Dom Marone?

- Não diga isso.

- Dom Marone, estás me provocando?

- Digamos que talvez.

- Pense bem. Provocando a mim?

- Caralho, porra. Sim, merda.

Dom Marone disse isso e caiu desmaiado com o soco que Tércio lhe enviou ao queixo. Depois disso, Tércio teve o seu maior ápice de um pensamento filosoficamente profundo - por toda sua vida - e mencionou lentamente numa grave voz interior: "a provocação às vezes dá certo". Ficou um tempo olhando prum canto conscientemente qualquer do teto e depois se mexeu.

Havia ainda uma porta antes de se alcançar a rua e Tércio deixou seu visinho desmaiado ali mesmo, escondido antes da rua.

Então saiu, dobrou uma esquina e abordou decididamente um mendigo num caixote dizendo.

- Trouxe minha encomenda?

O mendigo se assustou, olhou bem em seus olhos e se recompôs falando devagar, como se fosse bonito.

- O rouxinol canta a liberdade da pedra por não querer voar...

Disse isso e olhou com reticências pro Tércio, provavelmente à espera de uma continuação da frase. Parecia isso mesmo. Tércio então procurou manter-se à altura.

- O ar perde o defeito do som por não querer conta conjunta feita numa... deformar-te.

- Se fode, oto. Escorrega daqui senão os mira vão gozar. - disse o mendigo - Entendeu pelo menos isso, veado?

Tércio se afastou de imediato dali. O rouxinol devia ser um código secreto. Então esse era o mendigo errado. Devia inclusive ser inimigo. De um outro time. De repente, Tércio sentiu um segurão no braço.

- É o infeliz? - perguntou um brutamontes.

- É o presunto, passa ele. - respondeu logo atrás o mendigo do rouxinol.

Com um gosto metálico na garganta, Tércio ajoelhou já sem sentidos e pensou "aah uuh!" enquanto morria.