. há sujeiras na fonte d'água .




Sir Dom Minique Terceiro foi limpar o seu quintal e lá tinha uma fonte d’água cujos detalhes de um escultor delicadamente criativo dificultavam-lhe a tarefa da limpeza. Mas nesse dia ele teve uma idéia interessante ao juntar outras duas. Iria ferver alguns baldes de água com sabão, alvejante e álcool em gel e despejar ainda fervendo sob a fonte. Pensou assim que as recôndidas sujeiras não resistiriam.

"As recôndidas sujeiras...", repetiu ele com orgulho para si mesmo. Depois, ao chegar na cozinha, pensou em outra coisa e, ao contrário, decidiu fazer uma fogueira no quintal. Algo como um ritual.

Resolveu também avisar sua mãe, ela poderia se assustar com o fogo.

- Filho, precisava mesmo falar com você. Tive outra percepção! Vai haver sol cancerígeno hoje daqui...

De repente o cachorro começou a latir em direção à janela. Uma sensação muito estranha se apossa do local. Sir Dom Minique e sua idosa mãe escutam um zunido absolutamente silencioso. Barulho pegajoso e místico. Em três espécies de curvatura segmentadamente atraente numa lentidão de milésimos, o mundo parece surdo. Enxuto. A mãe de Dom Minique cai desmaiada. Talvez por isso ele sorri pela primeira vez em décadas e sinceramente abençoa todas as sensações muito estranhas.

A campanhia tocou parecendo trazer normalidade às coisas. Dom Minique não atendeu e ela tocou de novo. Ele então resolveu abrir. Se recompôs.

- Senhor? - disse uma preta gorda de forma humilde – Esta é Miguela. Não sei nem como falar mas é sua filha...

Uma linda garota ruiva jovem e animada apareceu sorrindo atrás da preta.

- Pai, prazer! Estou aqui porque mamãe até me contou quem era você pra se livrar de mim. Eu tenho um sonho. Quero ser atriz de internet. Já até pensei num nome.

Dom Minique fechou a porta e forçou tanto que ignorou. Assim. A sala ficou escura e calma por um instante. Dom Minique sorriu novamente e olhou suspirando com alívio pra sua mãe desmaiada no chão.

- Numa dessas bem que a senhora podia morrer.

A campanhia voltou a tocar. Dom Minique olhou enraivecido pra porta e pensou “nnnigwlrr”. De repente o cachorro voltou a latir em direção à janela. Aquela mesma ligeira estranheza se reapodera do local. O mundo cala-se de novo numa urgência que exige ser consagrada contemplando na mais absoluta não percepção de coisa alguma, nem do latido sai som. A porta é arrombada e a preta gorda imediatamente cai morta com o objeto pesado que Dom Minique, num revide inacreditável de rápido, atira alterofilisticamente em direção a testa dela. A menina jovem que estava com a preta se assanha. Tudo faz barulho novamente. Tudo voltou a fazer barulho.

- Pai, acalme-se, eu tenho uma idéia! Acalme-se, está tudo bem.

A menina disse isso e logo depois também caiu morta de forma semelhante.

Esquisito. Dom Minique ficou um tempo parado. Tudo esquisito.

Depois recolheu os corpos pra sala e os deixou lá. Voltou pro quintal. Debaixo do sol e árvores e uma linda fonte d’água suja. Três corpos na sala. Ainda tinha a limpeza. Catou os ingradientes. O balde, o sabão, o alvejante e o álcool em gel. Fez uma fogueira do lado da fonte d’água e então olhou pensativo de volta pra sala num arrepio vertebral. Sintético. Parecia pensar um pouco mas de repente saiu correndo pra lá. Imediatamente trouxe arrastando de uma só vez os três corpos pro quintal. Num assobio peculiar, chamou o cachorro. Depois, do nada, começou lentamente a levantar os braços e gritou com toda a força.

- Buda tirânico! A vida é maior! Uma perturbação atrás na costela da montanha prestes a abafar o carinho com a dupla face da personificação de uma ligeira armadilha nos trejeitos pré-arremessados contra o contorno da face (não dupla) de nossas posições irreveláveis do ponto mais ou menos inatingível pela visão da sedução formada no interior daquela atmosfera nojenta com o cheiro podre dela do tempo de quando ela ainda era capaz de feder. O mundo só piorou depois que inventaram o chão. Viva comigo. Suba o paladar! Aceitarás carne humana como um descanso. A fogueira servirá de tempero. A fonte d’água de desculpa. A sujeira permanecerá pois eu não vou limpar. Conheço os nomes do amanhã. Sigo demente, desumilde servo. Sirvo ao fogo. Tudo que é vivo serve ao fogo. O banquete. Cozinharei a criança primeiro, depois mamãe. Obviamente a preta é pro cachorro. Incompletude feito ocre e desfastio dos fatos de sombra. Baco era bicha.

. um passeio pela noite .



Era tarde da noite. Tércio desceu do prédio e encontrou seu vizinho Dom Marone de um modo um tanto inviesadamente calmo. Marone sorriu pro Tércio e disse:

- Tércio, grande Tércio! Se você se chamasse Pedro eu teria dito: Pedro, grande Pedro!

- Não venha me cobrar hoje, seu poeta de merda. Não me esqueço que além de um inútil você ainda é dono dessa porra.

- Acalme-se, Tércio. Senão daqui a pouco eu te chamo de Pedro, ou Terço! - gargalhou Dom Marone - Um terço, dois terço! - disse gargalhando.

- O senhor está se exaltando. É melhor calar a porra da boca senão eu espalho tudo sobre as patroas e suas escravinhas, as bugrinhas. Eu sei de tudo. Sua sorte é que estamos indo para metrôs diferentes. Eu iria espalhar pra todo mundo. Comprar agora cartazes. O dedo na sua cara. Sua vida moral morreria agora. Dê graças ao metrô! - Tércio disse isso e também gargalhou com eloqüência.

- Manere o sarcasmo. - respondeu Marone de imediato e com estilo - Que os metrôs não sejam desculpas. Eu vou com você.

- Está me provocando, Dom Marone?

- Não diga isso.

- Dom Marone, estás me provocando?

- Digamos que talvez.

- Pense bem. Provocando a mim?

- Caralho, porra. Sim, merda.

Dom Marone disse isso e caiu desmaiado com o soco que Tércio lhe enviou ao queixo. Depois disso, Tércio teve o seu maior ápice de um pensamento filosoficamente profundo - por toda sua vida - e mencionou lentamente numa grave voz interior: "a provocação às vezes dá certo". Ficou um tempo olhando prum canto conscientemente qualquer do teto e depois se mexeu.

Havia ainda uma porta antes de se alcançar a rua e Tércio deixou seu visinho desmaiado ali mesmo, escondido antes da rua.

Então saiu, dobrou uma esquina e abordou decididamente um mendigo num caixote dizendo.

- Trouxe minha encomenda?

O mendigo se assustou, olhou bem em seus olhos e se recompôs falando devagar, como se fosse bonito.

- O rouxinol canta a liberdade da pedra por não querer voar...

Disse isso e olhou com reticências pro Tércio, provavelmente à espera de uma continuação da frase. Parecia isso mesmo. Tércio então procurou manter-se à altura.

- O ar perde o defeito do som por não querer conta conjunta feita numa... deformar-te.

- Se fode, oto. Escorrega daqui senão os mira vão gozar. - disse o mendigo - Entendeu pelo menos isso, veado?

Tércio se afastou de imediato dali. O rouxinol devia ser um código secreto. Então esse era o mendigo errado. Devia inclusive ser inimigo. De um outro time. De repente, Tércio sentiu um segurão no braço.

- É o infeliz? - perguntou um brutamontes.

- É o presunto, passa ele. - respondeu logo atrás o mendigo do rouxinol.

Com um gosto metálico na garganta, Tércio ajoelhou já sem sentidos e pensou "aah uuh!" enquanto morria.